Flávio promete cuidar do Brasil. Seu passado permite acreditar?

Flávio Bolsonaro falou mais de futuro do que Lula, segundo a avaliação apresentada no título da coluna de Ricardo Corrêa sobre o debate da Globo. A observação permite uma discussão que ultrapassa o desempenho diante das câmeras. Anunciar propostas pode render vantagem na televisão, mas a credibilidade dessas propostas depende das condições para executá-las e da trajetória de quem as apresenta. O eleitor tem o direito de confrontar as promessas de um candidato com as escolhas que ele já fez. (agorapb.com.br⁠)

No encontro de sexta-feira, 23 de outubro, essa comparação encontrou material suficiente. Ao mesmo tempo que procurava apresentar compromissos sociais, Flávio precisou responder por atitudes e posições que tornam legítima uma pergunta sobre sua candidatura. Que confiança merece a promessa de cuidar das pessoas quando o próprio candidato recorre à humilhação do adversário e encontra dificuldades para explicar suas escolhas diante de uma mãe que perdeu a filha?

Flávio prometeu valorizar o salário mínimo e as aposentadorias, preservar o Bolsa Família e melhorar as condições de vida da população. São compromissos que precisam ser examinados em seus detalhes. Quanto custariam? Quais receitas os sustentariam? Como seriam conciliados com os cortes de despesas defendidos pelo candidato? A cobertura do debate registrou tanto suas promessas sociais quanto a falta de detalhamento do chamado “tesouraço”. (www1.folha.uol.com.br⁠, www1.folha.uol.com.br⁠)

Flávio promete cuidar

Para quem compra comida a prazo, espera uma consulta ou sustenta a casa com a aposentadoria, essas perguntas têm consequências práticas. Uma promessa de renda precisa chegar ao orçamento; uma promessa de atendimento exige profissionais, instalações e financiamento. Sem essas respostas, o eleitor recebe uma intenção cuja execução permanece incerta.

A inconsistência aparece quando a campanha reúne compromissos atraentes sem esclarecer como resolverá os conflitos entre eles. Cortar despesas e ampliar serviços exige indicar onde haverá economia, quem será afetado e quais áreas terão prioridade. A palavra “futuro”, repetida diante das câmeras, não resolve essa conta.

Lula pode e deve ser cobrado pelo que ainda falta fazer. A experiência de governo aumenta sua responsabilidade diante das dificuldades que persistem. Essa mesma experiência, porém, oferece elementos concretos para avaliar sua capacidade de transformar compromissos em políticas públicas.

O Bolsa Família foi instituído em seu primeiro governo, reunindo programas anteriores numa estrutura integrada de transferência de renda. O Prouni, criado em 2004 e instituído por lei em 2005, estabeleceu bolsas de acesso ao ensino superior privado. São iniciativas cujos resultados, limitações e possibilidades de aperfeiçoamento podem ser examinados. (planalto.gov.br⁠, gov.br⁠)

Tratar a referência a realizações como simples apego ao passado empobrece o julgamento sobre a capacidade de governar. O histórico permite conhecer prioridades, identificar erros e cobrar correções. Quem já governou responde por decisões tomadas; quem pretende governar precisa demonstrar que suas propostas resistem ao exame dos meios disponíveis e de sua própria atuação pública.

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Quando Flávio recorreu à expressão “nove dedos” para atingir Lula, introduziu no debate a mutilação sofrida pelo adversário em um acidente de trabalho. Posteriormente, pediu desculpas. O pedido deve constar do relato, assim como a escolha que o tornou necessário. (apnews.com⁠)

Há um conteúdo discriminatório nessa maneira de procurar vantagem política. Trabalhadores mutilados convivem com as consequências de acidentes que podem alterar sua autonomia, sua renda e suas relações sociais. Transformar essa condição em provocação pública prolonga o constrangimento que tantas pessoas enfrentam no cotidiano.

Ao usar uma mutilação para diminuir o adversário, Flávio ofereceu ao país um elemento para avaliar como reage ao conflito e quais limites aceita ultrapassar. O episódio pesa sobre a imagem de moderação que procura apresentar. A Presidência exige disposição para representar também aqueles com quem se discorda, inclusive quando a disputa se torna mais dura.

Na segurança pública, o passado de Flávio impõe perguntas igualmente concretas. Em discurso na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, em 2007, ele sustentou que as milícias não deveriam ser estigmatizadas e descreveu sua atuação como uma modalidade de policiamento. A gravação foi recuperada pelo UOL. (noticias.uol.com.br⁠)

Um candidato que apresenta soluções para enfrentar o crime organizado precisa explicar essa avaliação. Precisa dizer por que a fez, o que reconhece de errado nela e como pretende impedir que agentes públicos participem de estruturas criminosas.

A autoridade para prometer segurança depende também da clareza com que se enfrenta a violência praticada por quem recebeu do Estado armas e poder. As famílias precisam de proteção tanto contra o crime organizado quanto contra o abuso de agentes que deveriam protegê-las.

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O caso de Ana Clara tornou essa discussão especialmente dolorosa. A menina tinha cinco anos quando foi morta por um tiro de fuzil, em fevereiro de 2021, enquanto brincava perto de casa, em Niterói. Flávio integrou a defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado pelo Ministério Público, e assinou um recurso para reverter a decisão que o levaria ao Tribunal do Júri. O pedido foi rejeitado, e o processo permanece sem julgamento definitivo. (brasildefato.com.br⁠)

O acusado tem direito à defesa, e o exercício da advocacia não equivale à aprovação do crime imputado ao cliente. Esse direito, entretanto, não dispensa um candidato à Presidência de explicar suas escolhas ao eleitor. É legítimo perguntar por que Flávio assumiu essa causa e que atenção dedicou à família da criança.

No debate, diante de Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, o senador voltou a defender o policial acusado. A cena reuniu a promessa de proteger as famílias e a cobrança de uma mulher que continua esperando uma resposta da Justiça para a morte da filha. (brasildefato.com.br⁠)

É nesse ponto que a comparação entre os candidatos ganha profundidade. A experiência de Lula inclui a construção de políticas de alimentação, renda e educação, propósitos de alcance nacional que adquiriram forma institucional. Flávio pede confiança em suas promessas enquanto precisa responder pelo deboche dirigido a uma mutilação, por sua antiga posição sobre as milícias e por sua atuação no caso Ana Clara.

A grandeza dos propósitos de um governante pode ser avaliada pela extensão da proteção que procura assegurar e pela atenção que oferece às pessoas mais vulneráveis. Naquela noite, Lula levou ao debate a cobrança de uma mãe; Flávio precisou explicar sua defesa do policial acusado de matar a filha dela.

Quem promete cuidar do Brasil precisa demonstrar, em suas escolhas, que esse cuidado alcança também as famílias que esperam justiça pela violência sofrida.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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