Fé e celebração: o paradoxo humano entre Carnaval e Quaresma

“A vantagem da fé é que nunca se está sozinho. Nascemos sozinhos e morremos sozinhos? Não sei, só nascemos com a ajuda de outros e temos a certeza de que não se morre sozinho e que se está abençoado e preparado para o desconhecido que nos espera depois da morte”

Por Estevão Monteiro de Paula
________________

Qual é a sensação que deve ter um folião ao atravessar a Avenida? Muita emoção, uma mistura de alegria motivada pelo ritmo contagiante provocado pelos instrumentos de percussão da batucada de carnaval. Durante os dias de festa, a sensação de felicidade e liberdade é extremamente benéfica. É uma fuga da realidade, uma fantasia do que quiser e uma liberdade para expressar o seu eu único.

Como se diz na expressão popular, “cada um no seu, cada qual”. De Masi, em seu livro Criatividade, diz que a escola de samba é uma das maiores expressões de criatividade e de capacidade organizacional de um ser humano. É um momento de grande expressão de felicidade constatada com a limitação de que acaba em breve. Tudo deveria mudar na quarta-feira de cinza.

carnaval interna

A quarta-feira de cinza é o primeiro dia da Quaresma no calendário da religião católica. É a data que simboliza, pela igreja, a conversão da mudança da vida para a lembrança de que a vida humana é frágil e passageira. Neste dia, celebra-se a missa das cinzas, que resulta da queima dos ramos abençoados no domingo anterior, o dia dos ramos.

A Igreja Católica, a partir da quarta-feira, recomenda aos seus fiéis a fazerem jejum e a não comerem carne. Inicia-se daí a quaresma para serem dedicados à reflexão, oração e caridade. Recomenda-se aos fiéis católicos praticarem jejum e abstinência, principalmente de carne vermelha, refeições simples e evitarem excesso e banquetes. No rigor da igreja católica, todas as sextas-feiras da Quaresma deveriam ser feitas a abstenção de carne ou ser substituída” pela privação de outros alimentos e bebidas, sobretudo os mais requintados e dispendiosos [caros] ou da especial preferência de cada um”, conforme o Código de Direito Canônico.

fÉ
Foto divulgação

A igreja lembra que jejum não é uma dieta, mas uma prática espiritual para se unir a Deus na oração para serem superados os ressentimentos e mágoas. É imprescindível ter em mente que Deus é bondoso e que somos ou desejamos ser a sua imagem; portanto, devemos ser bondosos e generosos.

IMG 4691
A Luta entre o Carnaval e a Quaresma’ de 1559, pintado por Pieter Bruegel

Enfim, a realidade da sensação de liberdade e alegria dos carnavais passa a ser superada pelos dias de trabalho, angústias e de resiliência. A proximidade com Deus, sem dúvida, dá um impulso a mais para que o ser humano, cansado de tantos compromissos e responsabilidades diárias, transforme seus dias em momentos de contentamento e sensações de cumprimento das tarefas que lhe foram atribuídas.

A vantagem da fé é que nunca se está sozinho. Nascemos sozinhos e morremos sozinhos? Não sei, só nascemos com a ajuda de outros e, com fé, temos a certeza de que não se morre sozinho e que se está abençoado e preparado para o desconhecido que nos espera depois da morte.

Voltemos à batalha!

Que venha a realidade da vida

Estevão Monteiro de Paula é engenheiro civil, mestre em Engenharia de Estruturas e Ph.D pela Universidade do Tennessee, coordenador de pesquisas do INPA e professor titular da Universidade do Estado do Amazonas

Estevao Monteiro de Paula 2 1
Estevao Monteiro de Paula
Estevao Monteiro de Paula
Estevão Monteiro de Paula possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Amazonas (1979), mestrado em Engenharia de Estruturas na Escola de Engenharia de São Carlos pela Universidade de São Paulo (1981) e Ph.D. – University of Tennessee (1989) dos EUA. Membro da comissão de revisão da ABNT NBR 7190:1997 – Norma de Calculo e Estrutura de Madeira da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Exerceu atividades de Presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (órgão estadual de meio ambiente), Gerente do Centro Técnico Operacional de Manaus do Sistema de Proteção da Amazônia – SIPAM, Diretor Substituto do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA e Coordenador Geral de Pesquisas do INPA. Representou o Estado do Amazonas em comissões técnicas no Peru e Alemanha. Coordenou projetos de pesquisas na área de uso e tecnologia de Madeira, entre outras funções como gestor público de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia.

Artigos Relacionados

Recursos do Fundo Amazônia vão estruturar produção sustentável de borracha, pirarucu, cacau e cupuaçu na Amazônia

Programa federal investe R$ 96,6 mi para fortalecer cadeias produtivas da floresta amazônica, com apoio a cooperativas e logística.

Polêmica sobre agrotóxicos: Monsanto Papers revelaram influência oculta em estudo sobre glifosato

Estudo que isentava o glifosato é despublicado após revelações de falhas éticas, dados omitidos e influência da Monsanto na redação.

Sistemas agroflorestais podem destravar reflorestamento produtivo na Amazônia

Cartilha revela que sistemas agroflorestais são viáveis e podem acessar crédito com bônus ambiental na Amazônia.

Desastre de Mariana: Pesquisadores encontram metais pesados em alimentos na região

Estudo revela metais pesados em alimentos cultivados na região do desastre de Mariana, indicando riscos à saúde, especialmente para crianças.