Domesticação da Castanha-do-Brasil no Amazonas – Parte I

ENGENHEIRO AGRÔNOMO: SÉRGIO VERGUEIRO 

1º Congresso de Gestão da Amazônia (29-31.2018 – Manaus)

“FAZENDA ARUANÃ: HISTÓRICO, PRODUTIVIDADE E COMERCIALIZAÇÃO”

“Alimentar é o direito moral de todos os que nascem neste mundo.” 

(Norman Borlaug, 1914-2009)

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Meu nome é Sergio Vergueiro. Nasci em S. Paulo em 1939 e formei-me em Agronomia na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – USP em Piracicaba, na turma de 1960.

A partir de 1965, o Governo Federal iniciou um programa de incentivos fiscais para formação de empresas na Amazônia a fim de desenvolver e ocupar a região através de indústrias e agropecuárias. Esses empreendimentos eram iniciados com projetos analisados e aprovados pelo Governo, através da SUDAM Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia e da Superintendência da Zona Franca de Manaus.

A convite do Governo do Amazonas 

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Como não havia propriedades privadas nessas regiões, recomendei à minha família e amigos que aceitassem o convite do Governo Estadual e adquirissem terras do Estado para a implantação de projetos agropecuários destinados à cria, recria e engorda de bovinos. De 1967 a 1970, mais de 15 projetos foram apresentados à SUDAM e a implantação dos primeiros aprovados iniciou-se em 1970, dentre eles a AGROPECUÁRIA ARUANÃ, em Itacoatiara, e a FAZENDA SANTA INÊS, em Itapriganga (hoje, Presidente Figueiredo).

A  Agropecuária Aruanã desenvolveu a Fazenda Aruanã, situada no atual km 213 da Rodovia Manaus- Itacoatiara (AM-010) e tambem iniciamos a implantação da Fazenda Santa Inês S.A. na margem direita do Rio Uatumã, que foi totalmente inundada pela Represa da Usina Hidrelétrica de Balbina.

Critérios de Sustentabilidade 

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Na época, a reserva florestal na Amazônia era de 50% da área da propriedade. Desde meu primeiro projeto em Mato Grosso, a Fazenda Agrosan em Diamantino, adotei , por influência de meu amigo e co- autor desses primeiros projetos , também engenheiro agrônomo formado em Piracicaba, Rodolfo Ricardo Geiser, a prátca de evitar desmatamentos contínuos dividindo as Fazendas projetadas em blocos separados entre si por faixas contínuas de florestas primárias preservadas, com 500 metros de largura. Nesse blocos, de no máximo 500 hectares cada (aproximadamente 2.000 x 2.500 m), foram preservadas todas as áreas de nascentes e margens de cursos d’água (APP’s), prática que aprendemos em nossa Faculdade.

Pecuária non grata 

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A implantação física da Fazenda começou em 1971 e, até 73, foram desmatados 3.000 hectares em 6 blocos separados por faixas de 500 metros de floresta nativa intacta. Dentro dessa área, foram preservadas todas as APP’s. Seguiu-se o plantio de gramíneas, instalações zootécnicas (cercas, porteiras, currais) e iniciada a cria, recria e engorda com a introdução de gado regional (fêmeas e novilhos), oriundo de Alenquer e Monte Alegre, e touros Nellore de S. Paulo. Da mesma forma que ocorreu em outras regiões da Amazônia, as áreas de pasto degradaram-se, sendo dominados pela vegetação invasora denominada “juquira”, reduzindo gradativamente a capacidade de suporte do rebanho.

Suporte da Embrapa

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 Tornou-se evidente que, para recuperar essas pastagens, seria necessária a mecanização da limpeza, obrigatoriamente precedida da destoca de toda a área. Essa operação exigia grande investimento e passamos a procurar uma cultura que pudesse ser associada à pastagem a fim de custeá-lo (o investimento).

Encontramos no CPATU (Centro de Pesquisas do Trópico Úmido) na EMBRAPA de Belém, o Dr. Carlos Hans Müller que pesquisava o cultivo da Castanha-do-Brasil a partir de antigos trabalhos desde o antigo Instituto Agronômico do Norte. Já havia um banco de germoplasma constituído por uma seleção massal de castanhais de diversas regiões, experimentos de produção de mudas e enxertia.

Ciência, TecnologiA e Inovação 

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Considerando que a Castanha-do-Brasil (Brazil Nut) é um produto conhecido e atuante em mercados de todos os países do mundo há muito tempo, e cuja árvore produtora é nativa da Amazônia, animamo-nos a tentar cultivá-la em espaçamento de 20m x 20m (25 árvores por hectare), almejando utilizar o espaço intercalar como pastagem.

Apresentamos um projeto ao IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal), então orgão do Ministério da Agricultura, o qual foi aprovado e inciamos o primeiro plantio em 1981.

Desde o início, sempre com auxilio do Dr. Hans Müller da EMBRAPA e também do Dr. Urano, aprendemos a produzir mudas, plantá-las e enxertá-las (na época a recomendação para a enxertia era aos 12 meses). Implantamos um Jardim Clonal e fizemos a enxertia com material comprado do CPATU e a ajuda técnica do Dr. Hans Müller.

Título: DOMESTICAÇÃO DA CASTANHA-DO-BRASIL NO AMAZONAS – PARTE I

Edição Especial sobre a DOMESTICAÇÃO DA CASTANHA DO BRASIL NO AMAZONAS por Sérgio Vergueiro

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