“As democracias parecem não funcionar para os cidadãos porque as discussões estão muito fora da realidade”
Há uma dificuldade para olharmos para nós mesmos e para o Brasil. Uma grande razão para isso é o nosso tamanho e diversidade. Não temos um país, mas vários países dentro de uma mesma estrutura. Temos tido dificuldade de estabelecer um consenso mínimo do que é o tal “conjunto de reformas”, que vez por outra entra na fala das pessoas. Afinal, o que queremos mudar? Ou queremos mudar, para que continue ou mesmo ou queremos mudar para que fique ainda melhor para mim?
Esta dificuldade gera um dilema severo de comunicação. Podemos ficar na primeira fala, mas podemos nos aprofundar para uma segunda fala. Outro ponto importante no mundo da sociedade do clique rápido é o quanto a pessoa fala a verdade ou não. Por qual razão quando uma pessoa ou líder erra suas previsões e estimativas de maneira reiterada, mas segue sendo considerada como digna de ser ouvida na nova previsão?
Os interesses em debate público são de grupos econômicos com nome e sobrenome, mas ganham contorno de ‘interesse do país’. Por outro lado, o interesse de grandes regiões ou de uma quantidade expressiva de pessoas, não ganha as incontáveis horas de debate que demandaria para enfrentar o superar o desafio. Peguemos uma pauta mínima, como exercício, o transporte de ônibus nas cidades.
O desafio dos sistemas de ônibus enfrentado com sucesso poderia levar a uma economia de tempo enorme nas grandes cidades. Entretanto, ele está completamente fora dos problemas nacionais em discussão na formação da agenda pública. Preferimos nos ater a minucias de interesses minúsculos do que grandes problemas. Grandes problemas continuados passam a integrar a paisagem. É inacreditável e inaceitável que um aspecto tão claramente problemático do país não seja alçado a um grau de importância muito maior.
Enquanto isso, ficamos discutindo nas pautas públicas muito mais o que destruir do que como construir. As democracias parecem não funcionar para os cidadãos porque as discussões estão muito fora da realidade. Não temos pauta em debate público para a solução que contemplem problemas do cotidiano das massas. Não é de se espantar que as populações não se sintam acolhidas no debate público e político.
Chegou o desafio de apresentar projetos com início, meio e fim, mas que seja compreensível por especialistas e pelas massas. Estamos longe deste debate. Qual o projeto de país ou de Estado que temos em debate? Esta pergunta não é respondida, nem feita. Queremos reduzir a floresta a um punhado de dólares (como provocou o Caco Galhardo, em seu quadrinho de 27/03/2026) ou queremos encontrar um jeito de protegê-la e gerar alguns reais? Ou será que o queremos é apenas manter as estruturas de poder para conservar o bom e velho patrimonialismo?