Colisões na BR-262 matam 200 animais silvestres ao mês

A vítima mais recente da BR-262, a “rodovia da morte da fauna”, foi uma onça-pintada, a 20° desde 2016

Localizada em uma região biodiversa, entre Campo Grande e a ponte do Rio Paraguai, próximo a Corumbá, a rodovia BR-262 apresenta estatísticas cruéis quando se trata da morte de animais silvestres. Entre maio de 2023 e abril de 2024, 2,3 mil animais silvestres foram atropelados na via, segundo um monitoramento realizado pelo Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS).

Agora, mais uma onça-pintada entrou para as estatísticas de atropelamentos na rodovia, após ser encontrada morta no último domingo (19) no trecho entre Miranda e Corumbá, em Mato Grosso do Sul. Segundo o Instituto Homem Pantaneiro, com este caso, já são 20 onças-pintadas mortas por colisões com veículos na rodovia desde 2016.

Colisões na BR-262 matam 200 animais silvestres ao mês.
Colisões na BR-262 matam 200 animais silvestres ao mês | Foto: Divulgação/IHP

Apelidada de “Rodovia da Morte da Fauna”, a BR-262 é a nona maior rodovia do Brasil, com 2.213 km de extensão, ligando Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul. O trecho que corta o Pantanal, administrado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), é conhecido pelos altos índices de atropelamento de animais, o que exerge grande impacto na biodiversidade local.

De acordo com Arnaud Desbiez, presidente e fundador do ICAS, a rodovia atravessa os biomas Cerrado e Pantanal e tem sido monitorada desde 2013. Equipes percorrem a rodovia de carro a cada 15 dias para registrar as mortes de animais. No entanto, Desbiez ressalta que os números podem ser ainda maiores, pois muitos animais não morrem no local do atropelamento. O levantamento também revela que, além das onças-pintadas, outras espécies frequentemente atingidas por veículos incluem tatus, anfíbios, jacarés e cachorros-do-mato.

Equipes monitoram BR-262 e contabilizam animais silvestres atropelados a cada 15 dias.
Equipes monitoram BR-262 e contabilizam animais silvestres atropelados a cada 15 dias. — Foto: Projeto Bandeiras e Rodovias (ICAS)

“O animal é atropelado na rodovia, se a pancada é muito forte, ele morre ali, mas, mais da metade, na verdade, vão morrer a dez, vinte, até 900 metros da rodovia. E se o animal está a alguns metros da estrada, a gente já não vê ele mais”, explica.

Desbiez acredita que ações mais efetivas precisam ser implementadas, como cercamentos que conduzem os animais para passagens seguras, evitando que eles atravessem a rodovia.“A receita para evitar esse tipo de tragédia existe, já tem esse plano de mitigação, mas precisa que ele seja implementado.A BR-262 foi chamada de ‘rodovia da morte’ pelo New York Times, é uma rodovia famosa. A tendência das autoridades é colocar a culpa no usuário, dizendo que as pessoas dirigem muito rápido, não respeitam a velocidade. Mas, não é essa a problemática. Quando um animal atravessa rápido, não dá tempo”, comenta.

Ameaça à vida de animais e pessoas

De acordo com dados da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), entre 2013 e 2024, 47 pessoas perderam a vida em acidentes envolvendo colisões com antas. O levantamento, que inclui diversas rodovias de Mato Grosso do Sul, como a BR-262, baseia-se em informações divulgadas pela imprensa. As colisões com antas são particularmente graves devido ao tamanho e peso do animal, representando um risco significativo para motoristas e passageiros.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

O rio além da draga – PARTE I – Coluna Follow-Up

A mobilização das entidades do Amazonas para trazer os atores federais ao debate logístico merece ser reconhecida. Durante muito tempo, a navegação amazônica foi tratada em Brasília como uma facilidade concedida pela geografia: rios largos, extensos e aparentemente inesgotáveis dispensariam a disciplina de planejamento reservada às rodovias, ferrovias e portos. As secas de 2023 e 2024 expuseram o preço dessa ilusão. A presença recente do Ministério de Portos e Aeroportos, da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação e do DNIT abre uma oportunidade que a região não deve desperdiçar. Para aproveitá-la, será preciso qualificar o debate e distinguir uma obra necessária em certos pontos de uma política capaz de organizar todo o sistema.

Terra Indígena Apyterewa: desmatamento caiu de 102 km² para 7,5 km² após a retirada de invasores

Terra Indígena Apyterewa reduz o desmatamento após desintrusão, mas ameaças e risco de novas invasões ainda preocupam o povo Parakanã.

Mais de 90% das espécies de fungos nunca foram descritas; entenda por que isso importa

Brasil reconhece 24 fungos ameaçados de extinção e amplia a proteção diante da perda de habitats.