Brasil, cinco séculos de rentismo – por Marcio Pochmann

Breve balanço da captura da riqueza nacional, seja pelo uso da terra ou capital financeiro. A tônica: parasitismo socioambiental e globalização subordinada que corroem a soberania – e reduzem economia a entreposto do comércio exterior e ao rentismo

Por Marcio Pochmann

O fim da Guerra Fria (1947-1991) favoreceu a globalização, impulsionada pelo poder das grandes corporações transnacionais em arbitrar o custo do trabalho no mundo. O conjunto de reformas patrocinadas pelo receituário neoliberal desde o Consenso de Washington (1989) derrubou o sistema de barreiras protetivas nacionais herdado do período do segundo pós-guerra mundial.

Pela crescente liberalização da mobilidade do capital e também pelo movimento migratório, a capacidade de resistência sindical se contraiu, fazendo avançar a Divisão Internacional do Trabalho cada vez mais assimétrica. No caso brasileiro, a via da especialização da produção e exportação de commodities perseguida desde o ingresso na globalização em 1990 se viabilizou pela superexploração da força de trabalho, desmonte da competência de planejamento do Estado e devastação ambiental.

Através disso, a maioria política protagonizada pelos interesses das classes sociais proprietárias se fixou na extração da renda tanto pelo capital financeiro como pelo uso da terra (mineração, agropecuária, petróleo e outros). Para David Ricardo (Princípios de economia política e de tributação, 1817), o sentido econômico do rentismo decorria da existência de segmentos sociais que, ao deterem posses obtidas de formas variadas e até pela violência, viveriam de renda sem produzir benefícios socioeconômicos.

No Brasil, a trajetória do rentismo foi concebida por Manoel Bomfim como parasitismo social, próprio da modalidade de integração dos interesses econômicos nativos com parcela da Europa e dos Estados Unidos (Manoel Bomfim, América Latina: males de origem, 1903). É neste sentido que se pode compreender a formação do segmento primário exportador durante a colonização, cuja presença do exclusivismo comercial lusitano prevaleceu entre os séculos 16 e 18.

Brasil, cinco séculos de rentismo - por Marcio Pochmann

Em 1808, com abertura dos portos patrocinada como dádiva de D. João VI ao protetorado britânico, o comércio externo passou a se deslocar rapidamente de Portugal. Entre as décadas de 1820 e 1880, por exemplo, a metade das importações brasileiras vinha da Inglaterra, enquanto 1/3 do total das exportações do Brasil eram adquiridas pelos ingleses.

Com a primeira Guerra Mundial (1914-1918), o domínio inglês perdeu força, permitindo que as relações comerciais brasileiras com os Estados Unidos se intensificassem. A partir da década de 1920, os EUA se tornam o principal parceiro do comércio externo brasileiro, o que modificou a conduta nacional (que até então estava muito mais próxima da Europa), com a nova difusão interna do estilo de consumo estadunidense.

Entre as décadas de 1920 e 1970, por exemplo, os Estados Unidos absorveram quase a metade das exportações brasileiras, sendo que o Brasil recebia quase a mesma proporção de importados provenientes daquele país. Com o dólar enfraquecido desde o abandono de sua conversibilidade ao ouro e diante das recorrentes medidas de ajuste econômico para tentar manter a hegemonia estadunidense, a economia brasileira foi profunda e negativamente afetada desde os anos de 1980.

O resultado disso foi o esvaziamento da presença dos EUA no comércio externo brasileiro. Se no ano de 1960, por exemplo, quase 45% de tudo o que o Brasil exportava se destinava aos Estados Unidos, no ano de 2000 mal alcançou 25% das vendas externas brasileiras.

Paralelamente, o comércio externo foi se diversificando entre várias nações, deslocando-se dos países do Norte Global para o Sul Global. Mas foi com a China que o Brasil avançou mais, a tal ponto que, na crise financeira global gerada pelos EUA em 2007-09, passou a ser o principal parceiro comercial do país.

Desde então e cada vez em maior proporção, o comércio externo transitou para o Oriente, centro do dinamismo econômico global. Não somente o Brasil exporta cada vez mais commodities para aquele país como as importações de produtos de maior valor agregado e conteúdo tecnológico provêm da China.

escravos Imagem Acervo Museu Paulista 1
Imagem: Acervo Museu Paulista

Tendo em vista as concessões nacionais ao ingresso passivo e subordinado à globalização, com o avanço da superexploração do trabalho, esvaziamento do Estado e ampliação da degradação ambiental, a temática da feitoria vem à tona. Não se trataria, evidentemente, das características de feitorias próprias do longevo e passado colonialismo mercantil, quando prevaleciam os entrepostos comerciais instalados nas áreas litorâneas pelos portugueses, recebendo a produção escravista proveniente das grandes fazendas organizadas por logística, armazéns e alfândega governada pelo feitor que regia o comércio externo.

A metáfora da feitoria moderna agora decorre da constatação de que a realidade brasileira se afasta do potencial econômico e social que poderia ocupar como nação soberana, portadora de sistema produtivo avançado, complexo e integrado. Em resumo, uma sociedade superior, não a que se percebe decorrer cada vez mais rebaixada pela direção nacional imposta por classes proprietárias de extração da renda financeira e do uso da terra no Brasil.

Fonte: Outras Palavras

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

Dom Pedro II: a escola que ensina o passado e cobra o futuro

Com mais de 150 anos, colégio histórico Dom Pedro...

ANOTAÇÕES PARA O NOVO LUSTRO DA ECONOMIA BRASILEIRA: 2026 A 2030 -A GRANDE TRANSFORMAÇÃO – Parte VIII

Economia brasileira pressionada por sistemas empresariais mal estruturados, crescimento...

Congresso acelera debate sobre mineração em terras indígenas após decisão do STF

Decisão judicial expõe disputa entre interesses econômicos, direitos indígenas...

Entre impostos , dívidas e apostas, a renda encurta 

“O Brasil entrou em uma fase curiosa e preocupante...