“Durante a gestão de Bosco Saraiva, o Polo Industrial de Manaus alcança novos patamares e reposiciona o debate sobre desenvolvimento regional”
Há um cuidado importante quando se pretende analisar o desempenho recente da Zona Franca de Manaus: separar o entusiasmo legítimo com os resultados de qualquer tentação de simplificação. O que os indicadores de 2024 e 2025 revelam não é apenas um bom momento econômico, mas um ciclo consistente de expansão que merece ser interpretado com rigor técnico, institucional e histórico.
O Polo Industrial de Manaus ultrapassou, em 2024, a marca simbólica dos R$ 200 bilhões de faturamento e avançou ainda mais em 2025, alcançando cerca de R$ 227 bilhões. Não se trata de um salto episódico. O crescimento veio acompanhado de aumento no nível de emprego, expansão das exportações e, sobretudo, de uma carteira ativa de novos projetos industriais aprovados. Esse conjunto de variáveis aponta para algo mais estruturado: continuidade.
É nesse ponto que a atuação da Suframa precisa ser considerada com seriedade. Não como protagonista isolada do resultado econômico, mas como elemento relevante na construção das condições que permitiram esse desempenho. A autarquia opera em um ambiente complexo, onde decisões de investimento dependem de fatores macroeconômicos, dinâmica setorial, estabilidade regulatória e confiança empresarial. O que os dados sugerem é que, no período recente, esse ambiente funcionou com maior previsibilidade.
A gestão liderada por Bosco Saraiva assumiu um sistema que historicamente alterna momentos de dinamismo e de incerteza. Ao longo de 2023 e 2024, observa-se um esforço consistente de reorganização administrativa, aproximação com o setor produtivo e melhoria de processos internos. Esse movimento não aparece diretamente nas estatísticas de produção, mas se materializa naquilo que antecede o crescimento: decisão de investir.
A aprovação de centenas de projetos industriais nesse período, com bilhões de reais em novos investimentos previstos, é um indicador relevante. Mais do que números absolutos, esse fluxo sinaliza confiança. Empresas não ampliam capacidade nem iniciam novos empreendimentos sem algum grau de segurança institucional. Nesse sentido, a Suframa cumpriu um papel clássico de agência de desenvolvimento: reduzir fricções, dar clareza ao processo decisório e sustentar a credibilidade do modelo.
Outro aspecto que reforça essa leitura é o reconhecimento obtido na área de governança pública. A colocação da Suframa em posição de destaque nacional em avaliação de gestão não é, por si só, garantia de impacto econômico direto, mas indica que houve avanço em organização interna, transparência e capacidade de execução. Em ambientes complexos como o da Zona Franca, esses fatores costumam ser pré-condição para resultados mais amplos.
É igualmente importante observar a qualidade do crescimento. O desempenho industrial recente não ficou concentrado em um único segmento. Houve expansão relevante em bens de informática, eletroeletrônicos e duas rodas, mas também sinais positivos em outros subsetores. Essa dispersão reduz a vulnerabilidade do modelo e sugere maior resiliência diante de oscilações de mercado.
Ainda assim, qualquer análise responsável precisa reconhecer os limites dessa interpretação. O crescimento do Polo Industrial de Manaus não pode ser atribuído exclusivamente à gestão da Suframa. Variáveis externas tiveram peso significativo, como a recuperação da demanda nacional, ajustes nas cadeias globais de suprimentos, comportamento do câmbio e desempenho específico de setores industriais estratégicos. A Zona Franca sempre operou como um sistema aberto, sensível a fatores que vão além da governança local.
O mérito da gestão, portanto, não está em “produzir” o crescimento, mas em não bloqueá-lo — e, mais do que isso, em criar condições para que ele se sustentasse e se ampliasse. Em ambientes institucionais frágeis, o mais comum é que gargalos administrativos, insegurança regulatória e distanciamento entre Estado e setor produtivo atuem como freios. O que se observa no período recente é o oposto: um sistema que voltou a fluir.
Essa distinção é essencial para evitar leituras panfletárias. A grandeza da Zona Franca de Manaus não reside em resultados de curto prazo, mas na sua capacidade histórica de articular indústria, território e preservação ambiental. O ciclo de 2024 e 2025 reforça essa vocação ao demonstrar que é possível crescer com base em uma estrutura consolidada, sem romper com os fundamentos do modelo.
O que emerge dessa análise é uma oportunidade. Se a combinação entre governança mais eficiente e ambiente econômico favorável produziu resultados expressivos, o desafio agora é transformar esse ciclo em trajetória. Isso implica aprofundar a agenda de modernização, ampliar a integração com cadeias de valor mais sofisticadas, fortalecer a inserção internacional e avançar na conexão entre indústria e bioeconomia.
A Zona Franca de Manaus segue sendo uma das experiências mais singulares de política industrial e regional do país. Os números recentes não encerram o debate sobre sua efetividade, mas oferecem evidências de que, quando o arranjo institucional funciona, seus impactos se ampliam. A gestão da Suframa, nesse contexto, aparece como parte de um sistema que voltou a operar com maior coerência.
Mais do que celebrar recordes, o momento convida a consolidar aprendizados. Porque o que está em jogo não é apenas o desempenho de um parque industrial, mas a capacidade do Brasil de sustentar, na Amazônia, um modelo que combina produção, emprego e preservação — com densidade econômica e legitimidade institucional.