“Com o acordo com a União Europeia no horizonte, a saída é clara: fazer da Amazônia Ocidental um território de sistemas agroflorestais, sempre monitorados e continuamente aprimorados geneticamente, preservando a floresta e entregando escala para exportar”
O acordo entre o Mercosul e a União Europeia está em momentâneo entrave, mas o vetor geral é para que ele se concretize. Concretizando-se, é mais oportunidade que ameaça. Sobretudo à economia amazonense, tanto para o Polo Industrial de Manaus – PIM, quanto para a Bioeconomia, e todos os comércios e serviços envolvidos. O tempo em que ele está travado pode ser nova chance para que compreendamos isso.
Para o PIM o acordo seria ameaça se a Europa fornecesse insumos ou produtos concorrentes ao PIM. Contudo, quase todos os insumos e produtos concorrentes do PIM são oriundos da Ásia. Notável exceção são os polímeros, com origem nos Estados Unidos. Extremamente improvável o Mercosul buscar acordo de livre comércio com esses dois continentes.
Mercosul e União Europeia são complementares. Sem problemas que num primeiro momento o benefício ao PIM seja indireto. De pronto, o Brasil deve rentabilizar melhor as exportações de commodities alimentícias e energéticas. Essa renda fortalece o mercado interno brasileiro e este aumenta a demanda pelos bens de consumo duráveis produzidos no PIM.
Mas no PIM há setores que, se bem guiados, terão benefício direto. Cito o Polo Naval.A Europa tem um sistema de navegação interna por balsas que é uma base de demanda por embarcações semelhantes às que produzimos já em boa escala para o Arco Norte. Isso sem tirar do radar os iates e lanchas que povoam os cenários mediterrâneos.
Embarcações de pequeno e médio porte, que não exigem as enormes capacidades e ciclos operacionais já totalmente dominadas pelos estaleiros asiáticos. Não concorreríamos com eles, mas acrescentaríamos ao nosso “know-how” o benefício da proximidade aos melhores minérios do mundo, e razoável capacidade siderúrgica. Capacidade siderúrgica esta que deve aumentar com a reforma tributária – que corrigiráa atual carga que pune a exportação de produtos com maior valor agregado.
Dado o exemplo do PIM, retornamos à urgência da Bioeconomia. O livre-comércio tende a beneficiar as regiões por suas vantagens comparativas. No PIM temos a do setor naval, mas fora do PIM seria de esperar que fôssemos proeminentes exportadores de fármacos e alimentos. Não somos. Temos qualidade e diversidade. Falta-nos escala.
Noticia-se a resistência da União Europeia contra a produção agrícola do Mercosul. Certamente os franceses fariam biquinho contra o vinho argentino, mas aceitariam vorazmente o licor do abacaxi do Novo Remanso. O problema é que não produziríamos abacaxi suficiente para dar conta desta demanda. O mesmo para todos os demais produtos da nossa pauta de Bioeconomia com infinitas aplicações.
Daí que precisamos de uma governança local que providencie a adequada arquitetura econômica (expressão do amigo Alfredo Lopes). Precisamos que toda a Amazônia Ocidental seja tomada por sistemas agroflorestais, sob permanente monitoramento e aperfeiçoamento genético, para preservar a floresta e providenciar a escala necessária à exportação.
Este sistema de governança proveria um mecanismo de engenharia institucional de desenvolvimento. Aliando regularização fundiária, licenciamento ambiental, estruturas logísticas, apoio técnico e crédito. O Zoneamento Econômico-Ecológico pode ser a base disso, sobre solos e águas. É o mecanismo de engenharia institucional de desenvolvimento adequado para o século XXI. Mas, pela sua não aplicação, o Amazonas se mantém atrasado como a Europa do século XVII, anterior aos EnclosureActs. Esta é a maior oportunidade – e urgência – diante do acordo.