Meta, Trump e os interesses, os negócios e as  negociatas por trás das telas

Em 7 de janeiro de 2025, Mark Zuckerberg anunciou que trabalharia com Donald Trump para enfrentar governos que, segundo ele, perseguiam empresas americanas e pressionavam por censura. No mesmo pronunciamento, o presidente-executivo da Meta criticou a legislação europeia e atacou o que chamou de “tribunais secretos” na América Latina. O empresário apresentava uma mudança nas políticas de suas plataformas e procurava o apoio do governo dos Estados Unidos para sustentar sua posição diante de autoridades estrangeiras. (www1.folha.uol.com.br)

A declaração merece ser recuperada quando se discutem as responsabilidades da Meta no processo eleitoral brasileiro. Uma empresa com influência sobre a circulação de informações de milhões de eleitores havia anunciado sua disposição de atuar com Washington contra medidas adotadas por outros países. As implicações desse compromisso alcançam a capacidade de governos e tribunais fiscalizarem uma infraestrutura privada que passou a ocupar um lugar central na vida pública.

Trump e os interesses

Na ocasião, Débora Salles, pesquisadora do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro, identificou no anúncio uma aliança com o governo americano contra a regulação das atividades digitais. Sua avaliação, publicada pela Agência Pública, colocava em discussão o poder das plataformas de escolher quais obrigações aceitariam cumprir e quais apresentariam ao público como censura. (apublica.org)

Uma investigação da Reuters, publicada em 6 de novembro de 2025, revelou a dimensão econômica dos problemas de fiscalização da publicidade. Documentos internos estimavam que a Meta obteria aproximadamente 10% de sua receita total de 2024, cerca de US$ 16 bilhões, com anúncios de golpes e produtos proibidos. O material incluía fraudes comerciais e financeiras, cassinos ilegais e produtos médicos proibidos. (uol.com.br)

O percentual correspondia a uma estimativa interna sobre a receita mundial da empresa. Não se referia especificamente ao Brasil nem à publicidade eleitoral. Sua relevância está em mostrar que a companhia dispunha de avaliações sobre a escala financeira dos anúncios que contrariavam suas próprias regras.

A Reuters descreveu ainda um procedimento que permitia a anunciantes considerados provavelmente fraudulentos continuar comprando publicidade, mediante cobranças mais altas, quando os sistemas automatizados não atingiam o patamar de 95% de certeza de fraude. Os documentos também indicavam que a personalização podia expor usuários que interagiam com anúncios fraudulentos a mais conteúdos semelhantes. (br.investing.com)

A Meta contestou a reportagem. Seu porta-voz, Andy Stone, afirmou que os documentos ofereciam uma visão distorcida e que a estimativa incluía anúncios legítimos. Disse que o percentual real seria menor, mas não apresentou um número atualizado à agência. (pulitzer.org)

O conflito econômico permanece evidente. Impedir publicidade irregular significa abrir mão da receita que ela produz, além de investir em mecanismos de fiscalização. A sociedade tem razões para exigir que essas decisões sejam verificáveis por autoridades e pesquisadores independentes.

No Brasil, o NetLab identificou 1.613 anúncios político-eleitorais impulsionados do exterior e por atores sem autorização para realizar propaganda eleitoral, entre julho e setembro de 2026. As páginas estavam localizadas principalmente nos Estados Unidos, mas também em outros países, e os pagamentos foram feitos em moeda estrangeira. (netlab.eco.ufrj.br)

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Anuncios irregulares pela meta

Segundo o laboratório, muitos anúncios circularam inicialmente sem a classificação política adequada. A correção ocorreu depois de já terem alcançado público e gerado receita. O estudo aponta falhas sistêmicas na fiscalização e riscos de interferência estrangeira, embora os conteúdos favorecessem e atacassem diferentes candidatos, por vezes de maneira contraditória. Não identifica, portanto, uma orientação partidária única para toda a operação. (netlab.eco.ufrj.br)

Essa combinação de financiamento externo, identificação insuficiente e correção tardia compromete a possibilidade de acompanhar a publicidade enquanto ela influencia o debate. Durante uma campanha, esclarecer a origem de um anúncio depois de sua circulação pode ajudar a investigação, mas não recupera as condições em que o eleitor recebeu a mensagem.

Outro levantamento, divulgado por O Globo, encontrou ataques às instituições ou suspeitas sobre a condução das eleições em 1.586 dos 2.326 anúncios relacionados ao processo eleitoral analisados, equivalentes a 68,1% desse recorte. Também foram identificadas peças de candidatos sem a classificação político-eleitoral adequada. (netlab.eco.ufrj.br)

Criticar instituições faz parte da disputa democrática. A fiscalização precisa examinar o conteúdo, a origem do dinheiro e as condições de distribuição, sobretudo quando publicidade paga veicula desinformação ou escapa às exigências de transparência.

Enquanto anúncios irregulares conseguiam circular, a conta de publicidade da campanha de Lula sofreu uma restrição que a própria Meta reconheceu como equivocada. Segundo a empresa, a conta foi desativada em 23 de setembro por pouco mais de uma hora, após um anúncio ser enquadrado incorretamente em uma análise antifraude. A companhia afirma que os perfis oficiais no Facebook e no Instagram não foram bloqueados. (about.fb.com)

Em manifestação de 20 de outubro, o Conselho de Supervisão, órgão independente que avalia decisões da Meta, apontou falhas recorrentes na moderação eleitoral. Criticou a aplicação excessiva das políticas antifraude às contas de anúncios de Lula e cobrou transparência e mecanismos capazes de avaliar a eficácia das medidas da empresa. A manifestação foi noticiada pela Agência Brasil, Folha e Agência Estado. (agenciabrasil.ebc.com.br, www1.folha.uol.com.br, noticias.uol.com.br)

O assunto também chegou ao podcast O Assunto, do G1, em 16 de outubro. Entrevistado por Natuza Nery, Bruno Mattos, coordenador de projetos do NetLab, discutiu as denúncias e as dificuldades enfrentadas pelas autoridades para acompanhar irregularidades nas redes. (netlab.eco.ufrj.br)

A Meta nega interferência política e atribui os episódios a falhas técnicas. O alinhamento anunciado por Zuckerberg com Trump, por si só, não demonstra que o governo americano tenha ordenado intervenções na eleição brasileira. Essa hipótese exige provas específicas. A documentação disponível, entretanto, sustenta uma cobrança concreta sobre publicidade irregular, restrições indevidas e insuficiência dos mecanismos de controle. (about.fb.com, netlab.eco.ufrj.br, agenciabrasil.ebc.com.br)

O compromisso político anunciado por Zuckerberg torna essa cobrança ainda mais necessária. Quando o dirigente de uma plataforma global busca proteção de Washington contra autoridades estrangeiras, os países onde ela opera precisam conhecer os critérios que governam a circulação de informações em seus territórios. No Brasil, isso envolve identificar quem paga, quais conteúdos recebem distribuição, por que contas são restringidas e quanto tempo a empresa leva para corrigir seus erros.

A fiscalização da Meta integra o exercício da soberania brasileira e a proteção dos direitos de seus usuários. Sua credibilidade depende de acesso a dados, auditoria e cumprimento das decisões das autoridades competentes. Declarações empresariais de neutralidade precisam ser confrontadas com procedimentos verificáveis, especialmente durante uma eleição, quando o tempo de uma correção pode ultrapassar o tempo disponível para o eleitor decidir.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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