Inteligência Artificial em conversa com Mariana Leite — Episódio 5

Como aprender IA sem desaprender a pensar

A entrevista foi realizada pelo editor geral Alfredo Lopes

No episódio anterior desta série, Mariana Leite examinou o impacto da Inteligência Artificial sobre o trabalho. Algumas funções deverão desaparecer, muitas tarefas serão automatizadas e praticamente todas as profissões terão de rever o lugar ocupado pelo conhecimento, pela experiência e pelo julgamento humano.

Essa transformação traz uma pergunta inevitável. Por onde começa um profissional que percebe a mudança, mas ainda não sabe como incorporar a IA à sua rotina?

A dúvida parece simples. A resposta ficou mais difícil à medida que o mercado passou a oferecer uma quantidade crescente de modelos, ferramentas, cursos, certificações, vídeos e especialistas. A cada semana surge uma nova plataforma anunciada como indispensável. Quem tenta acompanhar todos os lançamentos logo sente que chegou atrasado.

Esse sentimento ganhou uma expressão conhecida no ambiente tecnológico: fear of missing out, ou FOMO, o receio de estar perdendo alguma novidade decisiva.

Mariana Leite conhece essa ansiedade por diferentes ângulos. Com mais de 15 anos de experiência em liderança, operações industriais e sustentabilidade, trabalhou em ambientes nos quais uma tecnologia precisa resolver problemas concretos. Hoje, como estudante de MBA e assistente de ensino em oficinas de Inteligência Artificial no MIT Sloan, acompanha profissionais e estudantes que procuram desenvolver fluência nessa nova área.

Sua primeira recomendação ajuda a reduzir a pressão: ninguém precisa aprender tudo de uma vez.


Mariana, se você pudesse deixar apenas uma recomendação para quem começa hoje a estudar Inteligência Artificial, qual seria o primeiro passo?

O primeiro passo é estar aberto para aprender e experimentar, sem absorver o medo ou a experiência negativa de outras pessoas.

A Inteligência Artificial muda muito rapidamente, e isso cria o conhecido FOMO. A pessoa sente que está sempre atrasada, porque surgiu uma ferramenta, um modelo, um curso ou uma tendência que ela ainda não conhece.

Mas ninguém aprende Inteligência Artificial inteira de uma vez. Se você aprende um pouco por dia ou por semana, testa em problemas reais e desenvolve critérios para avaliar os resultados, já está evoluindo.

Antes de abrir qualquer ferramenta, eu começaria por uma pergunta muito simples: que problema, tarefa ou decisão desejo melhorar com a IA?

INTELIGENCIA Artificial

A sequência parece óbvia, mas grande parte da aprendizagem percorre o caminho inverso. Primeiro vem a ferramenta. Depois, procura-se alguma utilidade para ela.

Esse comportamento ajuda a explicar por que tantas experiências terminam rapidamente. O usuário faz perguntas genéricas, recebe respostas superficiais e conclui que a tecnologia oferece pouco além da produção de textos.

Quando a experiência parte de uma necessidade conhecida, os resultados podem ser avaliados com mais rigor. Um jornalista consegue verificar se a ferramenta identificou os pontos relevantes de um documento. Um professor pode examinar se a explicação corresponde ao nível de seus alunos. Um advogado reconhece omissões numa minuta. Um engenheiro percebe quando determinada sugestão ignora as condições reais de uma operação.

O conhecimento prévio permite distinguir rapidez de qualidade.

Eu evitaria começar perguntando “qual modelo devo usar?”. A pergunta mais produtiva seria “o que estou tentando fazer melhor?”.

Pode ser resumir um texto, revisar um argumento, organizar uma planilha, estudar um conceito difícil, simular uma entrevista ou comparar alternativas. Escolha uma tarefa real e experimente a ferramenta nessa atividade.

A fluência vem do uso orientado. Consumir conteúdos sobre IA ajuda, mas chega um momento em que a pessoa precisa aplicar o que aprendeu, observar o resultado e entender onde a tecnologia funciona bem e onde apresenta limitações.


Há uma diferença entre acompanhar as transformações tecnológicas e viver submetido a elas.

A velocidade dos lançamentos cria a impressão de que cada ferramenta anterior perdeu valor. O usuário abandona uma plataforma quando ainda estava começando a compreendê-la, migra para outra e reinicia o aprendizado. Ao final, conhece superficialmente vários sistemas e domina poucos procedimentos.

Para Mariana, o iniciante precisa escolher uma ferramenta, permanecer com ela durante algum tempo e aprender seus princípios básicos.

Isso envolve compreender o que é um modelo de linguagem, como o contexto influencia a resposta, o que um comando precisa informar e por que o sistema pode produzir afirmações convincentes e incorretas.

Quais são os erros mais comuns de quem começa?

Eu destacaria quatro:

1- Tentar aprender tudo ao mesmo tempo;

2- Trocar de ferramenta todas as semanas sem aprofundar o uso de nenhuma;

3– Aceitar respostas sem verificar; e

4- Recorrer à IA para substituir o próprio raciocínio.

Escolha uma ferramenta e comece por ela. Procure compreender minimamente o que é um modelo de linguagem, o que é um prompt, o que significa fornecer contexto e por que os modelos podem alucinar.

Os sistemas generativos são treinados para produzir respostas fluentes e úteis. Essa fluência pode aumentar nossa confiança, mas não oferece garantia de verdade.


A popularização da IA produziu um mercado paralelo de fórmulas, comandos prontos e coleções de prompts. Algumas estruturas ajudam, sobretudo quando orientam o usuário a informar objetivo, contexto, público, formato e critérios de qualidade.

Nenhum comando, entretanto, corrige completamente um problema que ainda não foi compreendido por quem pergunta.

Saber conversar com uma IA depende menos de descobrir palavras secretas e mais de conseguir explicar o que se procura. Uma instrução clara geralmente nasce de um raciocínio claro.

Na prática, a primeira pergunta pode ser apenas o início. O usuário oferece informações adicionais, aponta falhas, pede alternativas, solicita exemplos e testa diferentes abordagens. Aos poucos, a interação deixa de funcionar como busca instantânea e passa a assumir a forma de um processo de investigação.

Mariana Leite

Não precisamos esperar até dominar todos os conceitos para começar. Podemos aprender enquanto usamos a ferramenta.

O importante é observar criticamente o resultado. O que está correto? O que está faltando? Qual fonte confirma essa informação? Que hipótese não foi considerada? Como posso melhorar a pergunta ou avançar para outra etapa da atividade?

A primeira resposta não precisa ser a resposta final.


Mariana resume uma boa jornada de aprendizagem em três hábitos: experimentar, verificar e refletir.

Experimentar significa escolher tarefas pequenas, preferencialmente conhecidas e de baixo risco. A pessoa utiliza a IA para organizar uma pauta, comparar alternativas, preparar perguntas, esclarecer um conceito ou revisar um texto.

Verificar exige examinar fatos, números, fontes, datas e relações de causa e efeito. Quanto maior a consequência de um erro, maior deverá ser o cuidado. Uma sugestão de título e uma orientação médica pertencem a níveis completamente diferentes de responsabilidade.

Refletir consiste em observar o que foi aprendido durante a interação. A ferramenta resolveu o problema? Economizou tempo? Melhorou a qualidade? A resposta revelou algum aspecto que o usuário ainda não havia considerado? Seria possível explicar a conclusão sem recorrer novamente ao sistema?

É nessa etapa que a informação começa a se transformar em conhecimento.

Mariana Leite
Mariana reúne mais de 15 anos de experiência em liderança, operações industriais e sustentabilidade. Durante mais de uma década, trabalhou em empresas dos setores de manufatura e óleo e gás, à frente de equipes, projetos de melhoria contínua, processos produtivos e auditorias nacionais e internacionais.

A velocidade da IA pode levar o usuário a simplesmente copiar o resultado?

Esse é um risco importante.

A IA entrega uma resposta organizada em poucos segundos. Por isso, copiar pode parecer mais eficiente do que examinar o raciocínio. Mas, quando fazemos isso, perdemos parte do aprendizado e podemos incorporar erros que não percebemos.

Depois de utilizar a ferramenta, procure explicar com suas palavras o que aprendeu. Pergunte a si mesmo se compreendeu a resposta, se conseguiria defendê-la e se sabe quais partes ainda precisam ser confirmadas.

Usar a IA deveria ampliar nossa capacidade de trabalhar e aprender. O resultado perde valor quando a pessoa deixa de compreender aquilo que está apresentando.


A aparência informal dessas plataformas pode esconder uma questão importante. Ao digitar numa ferramenta de IA, o usuário pode estar enviando informações para um sistema externo, sujeito a condições específicas de armazenamento, processamento e utilização de dados.

Profissionais começaram a inserir em plataformas públicas contratos, relatórios empresariais, informações financeiras, dados de clientes, documentos médicos, trabalhos escolares e detalhes de processos internos.

A aprendizagem sobre Inteligência Artificial precisa incluir, desde o começo, uma noção básica de segurança.

Nem toda informação deve ser enviada a um sistema de IA.

Dados pessoais, documentos confidenciais, informações empresariais, dados de clientes, pacientes ou alunos e detalhes de processos internos exigem cuidado.

Quem utiliza essas ferramentas no trabalho precisa conhecer as orientações da empresa e verificar quais plataformas foram autorizadas. O ganho de alguns minutos não compensa a exposição indevida de uma informação sensível.

Esse cuidado deveria ser aprendido desde a primeira experiência, e não somente depois que ocorre algum problema.


Existe um aspecto desconfortável nessa nova aprendizagem. Provavelmente ninguém chegará ao momento em que poderá dizer que concluiu sua formação em IA.

Modelos serão atualizados. Algumas ferramentas desaparecerão. Outras serão incorporadas aos programas que as pessoas já utilizam. Recursos hoje considerados avançados poderão transformar-se em funções comuns de editores de texto, planilhas, buscadores, sistemas empresariais e aplicativos de comunicação.

Nesse ambiente, a competência mais duradoura será a capacidade de continuar aprendendo. O conhecimento técnico importa, mas precisa caminhar ao lado da curiosidade, da experimentação e do julgamento.

Para profissionais experientes, isso representa uma oportunidade particular. Eles já conhecem os problemas de suas áreas, acumularam referências e reconhecem situações nas quais uma resposta genérica não é suficiente. A IA pode ampliar esse repertório, desde que o usuário permaneça responsável pela avaliação do resultado.

Eu não esperaria pelo curso perfeito nem pela ferramenta definitiva, porque provavelmente nenhum dos dois existirá.

Comece pequeno. Escolha uma tarefa, faça um teste, verifique o resultado e observe o que aprendeu. Depois avance para uma atividade um pouco mais complexa.

Se você aprende algo novo, aplica e desenvolve critério, já está construindo fluência.


A Inteligência Artificial costuma chegar acompanhada por promessas de velocidade. Redigir mais rápido, pesquisar mais rápido, analisar mais rápido, decidir mais rápido.

A velocidade tem valor. Também pode esconder respostas frágeis, conclusões prematuras e uma dependência crescente de sistemas que o usuário ainda compreende pouco.

O método sugerido por Mariana introduz uma pausa dentro dessa aceleração. A pessoa experimenta, verifica e reflete. O resultado pode até ser produzido pela máquina, mas a compreensão precisa pertencer a quem o utiliza.

Estudar IA não é apenas aprender a usar uma tecnologia nova. É aprender uma nova forma de trabalhar, estudar e pensar, sem abrir mão da autonomia intelectual.

Esse talvez seja o cuidado mais importante para quem está começando.


Aprender a utilizar Inteligência Artificial conduz a uma questão mais delicada.

Os modelos conversam com naturalidade, respondem com confiança e conseguem adaptar argumentos ao usuário. Essa fluência pode ajudar na aprendizagem, mas também aumenta seu poder de persuasão e a tendência humana de aceitar respostas sem examiná-las.

No próximo episódio, Mariana Leite discute a diferença entre usar a IA para ampliar o pensamento e permitir que ela formule, organize e conclua por nós.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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