Dados ambientais e decisões de governo revelam como Roraima enfrentou o avanço sobre a floresta, a crise Yanomami e o potencial da bioeconomia.
Roraima chega às eleições de 2026 após um ciclo marcado pelo incentivo à expansão agropecuária e mineral, pelo crescimento do desmatamento e pelo agravamento da crise humanitária Yanomami. O período foi conduzido principalmente por Antonio Denarium (Republicanos), empresário ligado ao agronegócio que governou desde janeiro de 2019 e foi reeleito em 2022.
A linha sucessória, porém, mudou em 2026. Denarium renunciou em março para disputar o Senado e Edilson Damião (União Brasil) assumiu o Executivo. Em abril, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cassou Damião, manteve Denarium inelegível por oito anos e determinou nova eleição direta após condenação da chapa por abuso de poder político e econômico. Soldado Sampaio (Republicanos), então presidente da Assembleia Legislativa, assumiu interinamente o governo em maio.
A sucessão colocou no centro da disputa as políticas estaduais de desmatamento, incêndios, garimpo, proteção indígena e desenvolvimento. Nessa reportagem da série Eleições na Amazônia 2026: O saldo que chega às urnas analisamos os passivos e avanços deixados pelo governo.
Plano de governo priorizou agropecuária e deixou meio ambiente sem metas
O governo Denarium adotou um discurso baseado na eficiência da iniciativa privada e no incentivo às atividades agropecuárias e minerais. Essa orientação apareceu no plano de governo de dez páginas apresentado ao TSE para a reeleição, em 2022. O documento não mencionou “meio ambiente” ou “mudanças climáticas” nem estabeleceu metas de redução do desmatamento, prevenção de incêndios ou adaptação aos eventos extremos.
Em contrapartida, o programa priorizou a agricultura de larga escala e a revisão de áreas protegidas. A gestão aprovou o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE-RR), que permitiu reduzir de 80% para 50% a Reserva Legal nas áreas em que o Código Florestal admite a flexibilização e adotou licenciamento simplificado e autodeclaratório para determinadas atividades agropecuárias.
O governo apresentou as medidas como instrumentos de regularização e desenvolvimento. Mas organizações ambientais e indígenas alertaram para o risco de ampliar a conversão sem reforçar a fiscalização. O contraste tornou o desmatamento um dos principais pontos de avaliação da gestão.
Desmatamento avançou na contramão da Amazônia
Roraima conserva cerca de 93% de sua vegetação nativa, segundo o MapBiomas, ficando atrás apenas do Amazonas e do Amapá. A preservação está ligada, em grande parte, à alta presença de Terras Indígenas e Unidades de Conservação. Contudo, esse percentual elevado convive com a pressão crescente sobre a floresta.
Dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), mostram que Roraima perdeu 436 km² de floresta entre agosto de 2023 e julho de 2024. O resultado representa alta de 53,5% em relação aos 284 km² do ciclo anterior. No mesmo período, o desmatamento caiu 30,6% no conjunto da Amazônia Legal — a maior redução percentual em 15 anos — e Roraima foi o único estado da região a registrar aumento.
A pressão não começou em 2024. No primeiro ano do governo Denarium, o desmatamento saltou de 195 km², em 2018, para 617 km², em 2019. Apesar de oscilações posteriores, todos os anos da gestão permaneceram acima do patamar registrado antes da posse de Denarium, com nova aceleração no fim do período. A derrubada se concentrou sobretudo no sul e no centro-sul do estado, em áreas de avanço da pecuária e das lavouras de soja e milho.
O PRODES mostra apenas parte da transformação, mas não contabiliza integralmente a conversão do Lavrado, formação savânica que ocupa cerca de 44 mil km² em Roraima. Isso dificulta medir a perda de um ecossistema também pressionado pela expansão agropecuária. Além do corte raso, o estado acumulou 2.824 km² de floresta degradada em 2024, segundo o SAD/Imazon. Nesse processo, a vegetação permanece parcialmente em pé, mas perde biodiversidade e funções ambientais devido principalmente ao fogo e à retirada de madeira.
A atuação estadual combinou flexibilização regulatória com limitações na fiscalização. A Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh) concentrava licenciamento, monitoramento e sanções, mas mantinha poucos fiscais para cobrir o estado. Também foram constatadas baixa arrecadação das multas e menos áreas embargadas pelo estado do que pelos órgãos federais. Outros resultados não puderam ser medidos devido à falta de dados sobre o reforço da equipe, o orçamento da fiscalização e os resultados obtidos após a alta de 2024.
Incêndios expuseram falhas na prevenção
A estiagem colocou essa estrutura à prova. Mais de 4 mil focos de calor foram registrados no primeiro trimestre de 2024, recorde para o período desde o início da série do INPE, em 1998. O El Niño favoreceu as chamas, mas a crise também evidenciou falhas de preparação do estado.
Roraima não mantinha brigadistas florestais estaduais permanentes e dependia do Corpo de Bombeiros, responsável também por outras emergências. A mobilização foi ampliada depois do decreto de emergência, em fevereiro, quando o fogo já atingia vários municípios. Aeronaves, brigadistas e recursos federais reforçaram a resposta estadual que foi insuficiente.
Outro fator de agravo foi que as autorizações de queima controlada continuaram válidas até o fim de 2023, apesar dos alertas sobre o El Niño, e a suspensão total ocorreu somente quando a crise já estava instalada. Assim, falta de brigadas permanentes, a estrutura reduzida da Femarh e a baixa integração com a União limitaram a prevenção. Ao todo, 14 dos 15 municípios foram afetados.
Leis pró-garimpo foram barradas pelo Supremo
A posição do governo sobre a mineração ganhou forma em duas leis contestadas no Supremo Tribunal Federal (STF). A Lei nº 1.453/2021 simplificou o licenciamento da lavra garimpeira e admitiu o uso controlado de mercúrio. O Executivo argumentou que a regularização retiraria trabalhadores da informalidade e poderia afastar a atividade das Terras Indígenas.
A norma ficou em vigor por menos de duas semanas. Porém, em fevereiro de 2021, o ministro Alexandre de Moraes suspendeu seus efeitos na ADI 6672, sob o entendimento de que estados não podem reduzir garantias ambientais nacionais. A decisão também destacou os riscos do mercúrio.
No ano seguinte, a Lei nº 1.701/2022 proibiu órgãos ambientais e a Polícia Militar de inutilizar equipamentos apreendidos. O STF entendeu que a regra contrariava a legislação federal e enfraquecia a fiscalização, pois máquinas deixadas em áreas remotas poderiam voltar a ser usadas. A norma foi suspensa em 2022 e declarada inconstitucional por unanimidade em 2023.
As iniciativas não provam que o governo tenha causado o avanço do garimpo ilegal, mas expressam a opção de flexibilizar suas regras. Falta também maior transparência sobre as licenças emitidas e ações estaduais do período contra as redes de apoio à mineração clandestina.
Crise Yanomami também cobrou respostas do estado
O impacto mais grave do garimpo ocorreu na Terra Indígena Yanomami, cuja proteção territorial e atenção básica à saúde são atribuições da União. Relatório do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania registrou ao menos 110 comunidades afetadas e apontou a intensificação das violações a partir de 2019. A mineração ilegal contaminou rios, comprometeu a pesca e a produção de alimentos, favoreceu a transmissão da malária e agravou os casos de desnutrição.
Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz identificou níveis elevados de mercúrio em 92,3% das 13 pessoas examinadas na comunidade de Waikas-Aracaçá. O resultado, devido ao tamanho e ao recorte da amostra, não pode ser generalizado para toda a população Yanomami, mas evidencia a exposição ao metal em uma área afetada pelo garimpo.
Em janeiro de 2023, o governo federal declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional e passou a coordenar ações de assistência, retirada de invasores e proteção territorial. A responsabilidade da União, entretanto, não elimina as atribuições do governo de Roraima. Ao estado cabem, entre outras funções, o atendimento hospitalar de média e alta complexidade e a atuação de suas forças de segurança contra as redes de apoio ao garimpo instaladas fora das terras indígenas.
Durante o período mais crítico da emergência, entre 2022 e 2023, indígenas com quadros graves de desnutrição e malária foram encaminhados para unidades como o Hospital Geral de Roraima e o Hospital da Criança Santo Antônio. Relatórios da Casa de Saúde Indígena de Boa Vista e inspeções do Ministério Público Federal apontaram superlotação e dificuldades nas transferências entre os polos-base, vinculados ao Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e a rede hospitalar. Os problemas expuseram a baixa integração existente entre os serviços federais e estaduais antes da emergência.
A posição institucional do governo Denarium também entrou no debate. A gestão sancionou duas leis favoráveis à atividade garimpeira: a Lei nº 1.453/2021, que criou um licenciamento simplificado e admitiu o uso de mercúrio, e a Lei nº 1.701/2022, que tentou impedir a destruição ou inutilização de máquinas apreendidas em operações contra o garimpo.
Investigações da Polícia Federal mostraram ainda que a estrutura do garimpo não se restringia ao interior da Terra Indígena Yanomami. Pistas clandestinas, fornecedores de combustível, operadores financeiros e compradores de ouro mantinham redes logísticas em Boa Vista e em outros municípios. Entre os investigados estavam pessoas ligadas ao círculo familiar do então governador Antonio Denarium. Seu sobrinho, Fabrício de Souza Almeida, foi indiciado pela Polícia Federal e tornou-se réu sob acusação de integrar um esquema de financiamento do garimpo ilegal e lavagem de dinheiro. O caso é uma acusação ainda sujeita à conclusão judicial, mas que suscitou conflitos.
Nesse contexto, órgãos de controle cobraram maior participação das instituições estaduais na fiscalização de postos de combustível, aeródromos particulares e empresas fornecedoras de máquinas e equipamentos. A Femarh também enfrentou questionamentos sobre a capacidade de monitorar propriedades rurais, assentamentos e vicinais próximos às terras indígenas, onde poderiam funcionar pontos de abastecimento e apoio às atividades ilegais. A crise, portanto, evidenciou não apenas as falhas da União na proteção do território Yanomami, mas também os limites da resposta estadual nas áreas de saúde especializada, segurança pública, fiscalização ambiental e controle das cadeias econômicas que sustentavam o garimpo.
Bioeconomia ficou sem plano e transição energética teve liderança federal
Roraima chegou a 2026 sem um Plano Estadual de Bioeconomia com metas e orçamento. No fim do período, o governo consolidou o Plano ABC+ Roraima, voltado à agropecuária de baixa emissão de carbono, mas a iniciativa não substituiu uma estratégia para as cadeias da floresta em pé.
Açaí, castanha, óleos vegetais e artesanato indígena não receberam o mesmo grau de estruturação concedido à soja, ao milho e à pecuária. Faltaram crédito, beneficiamento e acesso contínuo a mercados.
Na energia, a principal mudança foi a integração ao Sistema Interligado Nacional, iniciada em setembro de 2025 com o Linhão de Tucuruí. A obra reduziu a dependência das termelétricas e ampliou a segurança do fornecimento, mas também trouxe graves consequências socioambientais para o povo Waimiri-atroari.
O empreendimento foi conduzido pela União e pelo setor elétrico, com participação limitada do Executivo estadual. Por outro lado, a gestão Denarium não consolidou uma política de escala semelhante para levar energia renovável às comunidades isoladas.
O balanço mostra um estado que conserva a maior parte de sua vegetação, mas viu o desmatamento crescer, respondeu tardiamente aos incêndios e aprovou leis pró-garimpo barradas pelo STF. Além disso, não houve uma estratégia de bioeconomia a nível estadual e a principal mudança energética veio da União.
Parte dos problemas envolve atribuições federais, especialmente dentro das Terras Indígenas. Cabe ao estado, porém, fiscalizar atividades sob sua competência, prevenir incêndios, prestar atendimento hospitalar, fortalecer as forças de segurança e combater as estruturas econômicas que apoiam crimes ambientais.
Nas eleições de 2026, as promessas poderão ser avaliadas por compromissos objetivos: metas de redução do desmatamento, orçamento para a Femarh e brigadas permanentes, proteção do Lavrado, posição sobre garimpo e mercúrio, cooperação com órgãos federais e criação de uma política de bioeconomia. Com cerca de 93% de cobertura vegetal nativa, Roraima ainda pode escolher um modelo que gere renda antes de converter uma parcela maior desse patrimônio em passivos socioambientais.