“Considero que o maior desafio dos próximos anos vai além de administrar a transição decorrente da Reforma Tributária ou ampliar a competitividade da economia amazonense. Será, principalmente, construir uma compreensão nacional mais ampla sobre o significado estratégico da Amazônia. Países que conseguiram consolidar projetos duradouros de desenvolvimento aprenderam a reconhecer que determinados territórios produzem benefícios que extrapolam sua arrecadação imediata. Eles fortalecem a soberania, impulsionam a inovação, ampliam a segurança econômica e criam vantagens competitivas para toda a nação.”
Com este comentário, Marcelo Pereira conclui a entrevista sobre o Plano Estratégico de Desenvolvimento coordenado pelo senador Omar Aziz, do qual participou efetivamente. Uma conversa robusta sobre os principais desafios do próximo governante reunindo, com detalhes, as expectativas da população sobre o Amazonas que todos queremos. CONFIRA!!!!
Entrevista concedida ao Portal Brasil Amazônia Agora por Alfredo Lopes editor geral
11. O Plano Estratégico propõe uma mudança de paradigma ao tratar desenvolvimento como um projeto de Estado e não apenas de governo. O que muda, na prática, quando se adota essa perspectiva?
Marcelo Pereira
Essa talvez seja uma das ideias mais importantes de todo o Plano Estratégico. O Amazonas acumula uma sucessão de iniciativas relevantes que, muitas vezes, não alcançaram seu potencial justamente porque permaneceram vinculadas aos ciclos políticos e administrativos. A alternância de governos é própria da democracia, mas ela não pode significar a reinvenção permanente das prioridades do Estado. Quando políticas públicas estruturantes deixam de ter continuidade, perde-se tempo, desperdiçam-se recursos e, sobretudo, reduz-se a confiança da sociedade e dos investidores na capacidade do poder público de conduzir projetos de longo prazo.
Foi exatamente para enfrentar essa fragilidade que concebemos o Plano como um instrumento de Estado. Desde o início dos trabalhos, recebemos a incumbência cuja preocupação não foi elaborar um conjunto de propostas voltadas apenas para um mandato, mas construir uma base técnica capaz de orientar decisões estratégicas durante muitos anos.
Por isso, toda equipe técnica que atuou na elaboração do documento estruturou-o a partir de diagnósticos objetivos, indicadores fiscais, análise institucional e avaliação dos principais vetores de desenvolvimento do Amazonas, permitindo que cada proposta decorresse de evidências concretas e não apenas de escolhas circunstanciais.
Essa concepção aparece logo na apresentação do Plano, quando se afirma que o objetivo é constituir “o marco inicial de um plano de Estado”, aberto ao aperfeiçoamento permanente, à participação da sociedade e ao diálogo com instituições, universidades, setor produtivo e especialistas. Essa opção metodológica não é apenas uma questão conceitual. Ela representa uma forma diferente de governar, baseada na construção de consensos mínimos sobre temas que ultrapassam qualquer administração específica.
É por isso que os diferentes capítulos dialogam entre si. A discussão sobre responsabilidade fiscal está conectada à infraestrutura logística; a logística influencia a competitividade da indústria; a indústria se relaciona com ciência, tecnologia, inteligência artificial e bioeconomia; a bioeconomia depende de regularização fundiária, energia e segurança jurídica. O desenvolvimento deixa de ser visto como um conjunto de políticas isoladas e passa a ser compreendido como um sistema integrado, no qual cada decisão produz efeitos sobre diversos setores da economia e da administração pública.
Outro aspecto igualmente relevante é a incorporação de mecanismos permanentes de avaliação. O Plano propõe monitoramento contínuo das políticas públicas, revisão sistemática dos gastos, orçamento orientado por desempenho, pactuação de metas entre as unidades gestoras e fortalecimento dos instrumentos de transparência e controle. Essas medidas procuram criar uma cultura administrativa em que as políticas sejam avaliadas pelos resultados que produzem, e não apenas pela intenção que as inspirou.
Em última análise, tratar o desenvolvimento como política de Estado significa reconhecer que o Amazonas enfrenta desafios cuja solução exige continuidade institucional. A Reforma Tributária, a diversificação econômica, a interiorização do desenvolvimento, a modernização da gestão pública, a consolidação da bioeconomia e a inserção da inteligência artificial na administração pública são processos que ultrapassam um mandato. Eles exigem planejamento consistente, estabilidade de propósitos e capacidade de adaptação ao longo do tempo.
É essa visão que procuramos traduzir no Plano Estratégico. Mais do que oferecer respostas para os problemas do presente, buscamos construir uma referência técnica que ajude sucessivos governos e a própria sociedade amazonense a pensar o desenvolvimento como uma obra permanente, construída coletivamente e continuamente aperfeiçoada. Esse, a meu ver, é um dos diferenciais mais importantes deste trabalho.
12. O Plano reúne contribuições de especialistas de diferentes áreas e permanece aberto ao recebimento de sugestões da sociedade. Qual a importância dessa construção coletiva?
Marcelo Pereira:
Acredito que um dos maiores equívocos do planejamento público seja imaginar que problemas complexos possam ser resolvidos por uma única especialidade ou por uma única visão institucional. O Amazonas é um território de dimensões continentais, marcado por desafios fiscais, logísticos, ambientais, sociais, tecnológicos e geopolíticos profundamente interligados. Um plano dessa natureza somente poderia nascer da convergência entre diferentes competências, diferentes experiências e diferentes formas de compreender o desenvolvimento.
Foi exatamente essa a diretriz que o Senador Omar nos passou, deixando-nos a vontade para atuar tecnicamente em cada tema, mas pensando em como as políticas públicas poderiam alcançar quem dela necessita, esse foi o espírito que orientou a elaboração do Plano Estratégico.
Ao longo de sua construção reunimos economistas, juristas, engenheiros, especialistas em infraestrutura, pesquisadores, representantes do setor produtivo, profissionais ligados à gestão pública e estudiosos de áreas como energia, bioeconomia, logística, ciência, tecnologia e inovação. Não se tratava de produzir um documento acadêmico nem um programa eleitoral convencional. Nosso objetivo era construir uma visão integrada da realidade amazonense, capaz de identificar relações que muitas vezes permanecem invisíveis quando cada tema é analisado isoladamente.
Essa opção metodológica explica a própria estrutura do Plano. O diagnóstico fiscal, por exemplo, não aparece como um capítulo independente da economia. Ele se conecta diretamente à capacidade de investimento do Estado, à infraestrutura logística, à política energética, ao desenvolvimento do setor primário, à competitividade industrial, à bioeconomia, à ciência, à inteligência artificial e à atração de investimentos. Essa transversalidade somente foi possível porque o trabalho reuniu profissionais de formações distintas, permitindo que cada área contribuísse para uma compreensão mais abrangente do desenvolvimento.
Também tivemos a preocupação de reconhecer que nenhum documento dessa dimensão pode ser considerado definitivo. O desenvolvimento é um processo dinâmico. Novos dados surgem, a legislação evolui, tecnologias transformam setores inteiros da economia e eventos internacionais alteram permanentemente os cenários de decisão.
Por essa razão, o Plano foi concebido como um documento vivo, explicitamente aberto ao aperfeiçoamento contínuo. A disponibilização de um canal permanente para o envio de sugestões, críticas, atualizações estatísticas e contribuições técnicas não representa apenas um gesto de participação social. Ela traduz uma compreensão de que planejamento estratégico exige permanente capacidade de aprendizagem institucional.
Outro aspecto importante diz respeito à legitimidade das políticas públicas. Quando universidades, entidades empresariais, centros de pesquisa, organizações da sociedade civil e especialistas participam da formulação de um projeto dessa natureza, amplia-se significativamente sua capacidade de produzir consensos duradouros. Isso reduz a percepção de que determinadas propostas pertencem exclusivamente a um governo ou a um grupo político específico. Elas passam a refletir um esforço coletivo de compreensão da realidade amazonense, fortalecendo a confiança da sociedade na qualidade técnica das decisões.
Essa construção coletiva também revela uma mudança de cultura administrativa. Durante muito tempo, prevaleceu a ideia de que planejar consistia em definir metas dentro dos gabinetes e posteriormente submetê-las à sociedade. Hoje compreendemos que o processo pode ser mais rico quando a própria sociedade participa da formulação das prioridades, oferecendo conhecimento acumulado, experiência prática e diferentes perspectivas sobre os desafios do Estado. Esse diálogo tende a produzir diagnósticos mais precisos e políticas públicas mais consistentes.
Penso que essa talvez seja uma das principais características deste Plano Estratégico. Ele não pretende apresentar verdades definitivas. Procura oferecer uma base técnica sólida, construída de forma colaborativa, capaz de orientar decisões presentes e futuras, permanecendo permanentemente aberta ao aperfeiçoamento. Essa disposição para ouvir, revisar e evoluir talvez seja uma das maiores demonstrações de compromisso com a boa governança e com o próprio futuro do Amazonas.
13. Você participou da condução da Suframa em um momento importante para a defesa da Zona Franca de Manaus. De que forma essa experiência contribuiu para a elaboração deste Plano?
Marcelo Pereira
A experiência na Superintendência da Zona Franca de Manaus foi extremamente enriquecedora porque me permitiu observar, simultaneamente, o funcionamento da política pública, a dinâmica do setor produtivo e as profundas transformações pelas quais passa a economia mundial. A Suframa ocupa uma posição singular dentro da administração pública brasileira. Ela dialoga diariamente com a indústria, com investidores nacionais e internacionais, com centros de pesquisa, universidades, órgãos federais, governos estaduais e municipais, além de acompanhar permanentemente as mudanças no ambiente regulatório e tributário.
Essa posição oferece uma visão bastante ampla dos desafios e das oportunidades que se apresentam ao Amazonas. A Suframa poderia fazer muito mais, tem uma máquina administrativa alinhada ao desenvolvimento e técnicos valorosos na linha de frente das operações, mas infelizmente seu orçamento foi contingenciado ao longo das últimas duas décadas, justamente os recursos que poderiam ser drenados para as políticas públicas no interior da Amazônia Ocidental.
Ao longo desse período tornou-se ainda mais evidente que a Zona Franca de Manaus não pode ser compreendida apenas como um conjunto de incentivos fiscais. Essa talvez seja uma das simplificações que mais dificultam o debate nacional e distorcem a essência da política.
A Zona Franca constitui uma política pública de desenvolvimento regional concebida para atender objetivos econômicos, sociais, territoriais e estratégicos definidos pela própria Constituição brasileira. Sua função ultrapassa a produção industrial. Ela participa da ocupação econômica da Amazônia, da integração nacional, da geração de empregos qualificados, da atração de investimentos, da incorporação tecnológica e da consolidação da presença do Estado brasileiro numa região de enorme importância geopolítica. O Plano Estratégico parte exatamente dessa compreensão mais abrangente.
Outro aprendizado importante diz respeito à velocidade das mudanças que vêm ocorrendo na economia internacional. Nos últimos anos acompanhamos transformações profundas nas cadeias globais de produção, na digitalização industrial, na transição energética, na reorganização do comércio internacional e, mais recentemente, nos debates relacionados à Reforma Tributária brasileira.
Esses movimentos demonstram que preservar a competitividade do Polo Industrial de Manaus exige muito mais do que manter incentivos. Exige capacidade permanente de inovação, atualização tecnológica, formação de capital humano e diversificação econômica. Essa percepção está presente em diversos capítulos do Plano, especialmente quando tratamos de ciência, tecnologia, inteligência artificial, bioeconomia, mineração sustentável e atração de investimentos.
A própria discussão sobre a Reforma Tributária reforçou essa visão sistêmica. Tivemos a oportunidade de acompanhar tecnicamente a construção dos novos instrumentos constitucionais destinados a preservar o diferencial competitivo da Zona Franca de Manaus.
O Plano procura explicar de forma detalhada como alguns desses mecanismos funcionarão, quais são suas bases jurídicas, quais oportunidades se abrem para o Estado e quais desafios permanecerão durante o longo período de transição do novo sistema tributário. Mais importante do que simplesmente afirmar que a Zona Franca foi preservada, procuramos demonstrar que essa preservação deverá ser acompanhada por uma estratégia consistente de diversificação econômica e fortalecimento das novas vocações produtivas do Amazonas.
Outro aspecto que a experiência na Suframa deixou muito claro é que desenvolvimento regional não se constrói por compartimentos isolados. Não basta fortalecer a indústria e o comércio se a logística permanece precária. Não basta ampliar investimentos privados sem energia confiável, conectividade digital, regularização fundiária e qualificação profissional.
Da mesma forma, não basta discutir bioeconomia sem infraestrutura científica, financiamento adequado e ambiente institucional favorável à inovação. Foi essa percepção integrada que procuramos transportar para o Plano Estratégico. Cada capítulo foi concebido para dialogar com os demais, formando uma arquitetura coerente de desenvolvimento.
Talvez essas sejam as principais contribuição da experiência adquirida na Suframa para este trabalho. Ela reforçou a convicção de que o futuro do Amazonas dependerá cada vez menos de políticas isoladas e cada vez mais da capacidade de integrar indústria, comércio e serviços, alinhando ciência, tecnologia, sustentabilidade ambiental, inovação, infraestrutura e gestão pública eficiente dentro de um mesmo projeto de desenvolvimento. Essa é, em grande medida, a lógica que orienta todo o Plano Estratégico.
14. Entre tantos capítulos e propostas, qual você considera o principal diferencial deste Plano em relação aos documentos tradicionais de campanha?
Marcelo Pereira
Creio que a principal diferença está na forma como o Plano foi concebido. Tradicionalmente, programas de governo procuram apresentar compromissos setoriais ou relacionar um conjunto de obras e ações que se pretende executar ao longo de um mandato. São documentos importantes para o processo democrático, mas, em geral, limitam-se à enumeração de prioridades administrativas.
O que nos foi solicitado pelo Omar Aziz foi algo distinto, ele não queria propostas que se perdessem com um mandato, ele nos pediu algo que deixasse um legado para o povo amazonense. Por isso, antes de formular qualquer proposta, procuramos compreender, com profundidade, a realidade econômica, fiscal, institucional e territorial do Amazonas, pois são essas questões equilibradas que poderão oferecer para aqueles que vivem aqui uma política que auxilie na dignidade. Partimos do princípio de que nenhuma estratégia consistente de desenvolvimento pode prescindir de um diagnóstico rigoroso.
Foi justamente essa metodologia que orientou todo o trabalho. Cada capítulo procura responder a uma pergunta fundamental: por que determinado problema existe, quais fatores estruturais o explicam e quais instrumentos podem produzir mudanças duradouras.
Essa lógica levou à construção de um documento que reúne diagnóstico, análise comparativa, referências nacionais e internacionais, fundamentos jurídicos, indicadores econômicos e propostas de implementação articuladas entre si. Em outras palavras, buscamos substituir a lógica da promessa pela lógica do planejamento e pela certeza da possibilidade de execução.
Outro diferencial importante é a integração entre os diversos temas. O desenvolvimento do Amazonas não pode ser compreendido por compartimentos. A sustentabilidade fiscal influencia a capacidade de investimento; os investimentos dependem de infraestrutura; a infraestrutura condiciona a competitividade da indústria; a indústria dialoga com ciência, tecnologia e inovação; essas, por sua vez, ampliam as oportunidades da bioeconomia, da mineração responsável, da economia criativa e da atração de novos empreendimentos. O Plano procura mostrar que essas relações formam um sistema, no qual cada decisão repercute sobre as demais áreas da administração pública. Essa visão integrada é uma de suas principais características.
Também fizemos questão de incorporar ferramentas modernas de planejamento que vêm sendo utilizadas por governos e organismos internacionais. O documento propõe orçamento orientado por desempenho, revisão sistemática de gastos públicos, avaliação permanente das políticas públicas, fortalecimento da governança fiscal, utilização crescente de inteligência artificial na administração tributária e financeira, definição de metas para as unidades gestoras e mecanismos permanentes de monitoramento dos resultados. Não se trata apenas de indicar o que deve ser feito, mas de estabelecer instrumentos capazes de acompanhar a execução das políticas e corrigir seus rumos sempre que necessário.
Há ainda um aspecto que considero particularmente relevante. O Plano não foi elaborado para encerrar um debate. Foi concebido para iniciá-lo. Desde sua apresentação deixamos claro que se trata de um documento aberto ao aperfeiçoamento permanente, construído a partir da contribuição de especialistas, instituições e representantes da sociedade, permanecendo disponível para receber novas sugestões e atualizações.
Essa abertura não representa falta de convicção. Ao contrário, demonstra a compreensão de que o desenvolvimento é um processo dinâmico e que o planejamento precisa acompanhar as transformações da economia, da tecnologia e das demandas sociais, pois são aqueles que vivem na pele as políticas públicas quem tem mais capacidade para dizer o que é, de fato, importante para a vida do cotidiano.
Essa é justamente a combinação entre diagnóstico técnico, visão sistêmica, planejamento de longo prazo e compromisso permanente com o aperfeiçoamento que diferencia este trabalho. A preocupação do Senador Omar era em não apresentar um documento voltado apenas para uma eleição.
Neste aspecto, procuramos oferecer uma base consistente para que o Amazonas possa enfrentar os desafios que já conhecemos e, ao mesmo tempo, preparar-se para aqueles que ainda surgirão – Isso foi o que denominamos tornar o Amazonas forte de novo! Em um mundo marcado por mudanças cada vez mais rápidas, planejar deixou de ser um exercício burocrático. Tornou-se uma das principais responsabilidades de quem pretende governar com visão de futuro.
15. Depois de meses dedicados à elaboração deste Plano, que mensagem o senhor gostaria de deixar aos amazonenses e aos brasileiros sobre o futuro do Estado?
Marcelo Pereira
Creio que a principal contribuição deste Plano talvez não esteja apenas nas propostas que apresenta, mas na forma como convida o Brasil a olhar para o Amazonas. Durante muito tempo, grande parte do debate nacional concentrou-se em perguntar quanto custa desenvolver esta região. Essa é uma pergunta legítima, mas, isoladamente, ela produz uma compreensão incompleta da realidade amazônica. Tão importante quanto avaliar os investimentos realizados é compreender os benefícios que o Amazonas gera para o conjunto da sociedade brasileira.
Ao longo da elaboração deste trabalho, essa percepção tornou-se cada vez mais evidente. O Amazonas ocupa uma posição singular no território nacional. Abriga a maior floresta tropical do planeta, desempenha papel decisivo na estabilidade climática da América do Sul, influencia regimes de chuva que sustentam parte significativa da agricultura brasileira, concentra um patrimônio biológico de valor científico extraordinário e representa uma das principais fronteiras geopolíticas do país. Esses ativos não pertencem apenas aos amazonenses. Eles integram o patrimônio estratégico da República.
Essa mesma lógica se aplica à Zona Franca de Manaus. Ao longo de sua história, ela foi frequentemente analisada quase exclusivamente pela ótica dos incentivos fiscais. Naturalmente, esse aspecto possui relevância e deve ser permanentemente acompanhado com rigor e transparência. Entretanto, limitar essa política pública ao debate tributário significa ignorar sua função mais ampla.
A Zona Franca contribuiu para estruturar uma economia de elevada complexidade tecnológica, atrair investimentos, formar capital humano, estimular pesquisa, fortalecer a presença institucional do Estado brasileiro na Amazônia e oferecer uma alternativa concreta de desenvolvimento compatível com a conservação de uma parcela significativa da floresta. Sua importância precisa ser compreendida dentro desse contexto mais abrangente, inclusive à luz das transformações introduzidas pela Reforma Tributária e das novas oportunidades de diversificação econômica discutidas ao longo deste Plano.
Vivemos, além disso, um momento de profundas mudanças na economia internacional. A transição energética, a valorização dos ativos ambientais, o avanço da inteligência artificial, a reorganização das cadeias globais de produção e a crescente importância da segurança alimentar e climática reposicionam a Amazônia no centro de debates que ultrapassam as fronteiras brasileiras.
Isso exige que o Amazonas esteja preparado para ocupar um novo lugar na economia do conhecimento, fortalecendo ciência, tecnologia, inovação, bioeconomia, infraestrutura, logística, educação e gestão pública. É justamente essa visão integrada que procuramos construir ao longo de todo o Plano Estratégico.
Considero que o maior desafio dos próximos anos vai além de administrar a transição decorrente da Reforma Tributária e ampliar a competitividade da economia amazonense. Será construir uma compreensão nacional mais ampla sobre o significado estratégico da Amazônia. Países que conseguiram consolidar projetos duradouros de desenvolvimento aprenderam a reconhecer que determinados territórios produzem benefícios que extrapolam sua arrecadação imediata. Eles fortalecem a soberania, impulsionam a inovação, ampliam a segurança econômica e criam vantagens competitivas para toda a nação.
O Amazonas reúne exatamente essas características. Seu futuro interessa aos seus habitantes, mas interessa igualmente ao Brasil. Por isso, o desenvolvimento do Estado não deve ser compreendido como uma agenda regional. Trata-se de uma agenda nacional, que exige planejamento, continuidade institucional, responsabilidade fiscal, capacidade de inovação e visão estratégica.
Este Plano pretende contribuir para essa mudança de perspectiva, e assim já terá cumprido uma de suas funções mais importantes. Porque, em última análise, planejar o futuro do Amazonas significa também ajudar a planejar o futuro do Brasil. É essa convicção que orientou cada capítulo deste trabalho e que, sinceramente, espero que permaneça inspirando o debate público muito além do calendário eleitoral. Esse é o Amazonas Forte, de novo, que almejamos…