“Em meio ao agravamento dos eventos climáticos extremos, volta à cena a pressão para desmontar instrumentos que ajudaram a conter o desmatamento da Amazônia. A insistência revela um país dividido entre as evidências científicas e um modelo econômico que ainda trata a floresta como obstáculo ao desenvolvimento”
Há momentos em que a realidade fala tão alto que qualquer discurso deveria recolher-se para ouvi-la.
A Amazônia acaba de atravessar dois dos mais severos episódios de estiagem de sua história recente. Rios atingiram níveis críticos, comunidades permaneceram isoladas durante semanas, a fumaça voltou a comprometer a saúde pública, a navegação sofreu interrupções, a logística nacional acumulou prejuízos bilionários e a indústria instalada no Polo Industrial de Manaus precisou reorganizar cadeias de abastecimento para preservar sua competitividade.
Ao mesmo tempo, agricultores de diferentes regiões do país passaram a conviver com um regime de chuvas cada vez menos previsível. O setor elétrico acelerou investimentos em armazenamento de energia para enfrentar uma matriz submetida a oscilações crescentes. Seguradoras, bancos e investidores incorporaram o risco climático às suas decisões.
O Greenpeace Brasil registrou imagens do Rio Negro, em Manaus, Amazonas, documentando a seca extrema que atinge, pelo segundo ano consecutivo, os rios amazônicos. Em 3 de outubro de 2024, a cota do Rio Negro chegou a 12,69 metros, às 17h00, quebrando o recorde anterior, que era de 12,70 metros, durante a seca de 2023 – segundo dados do Rede Hidrometeorológica Nacional, Serviço Geológico do Brasil, estação Rio Negro em Manaus.
. A seca dessa ano chegou mais cedo e tem impactado diretamente as populações mais vulnerabilizadas.
Seria natural imaginar que essa sucessão de acontecimentos produzisse um consenso mínimo: preservar a capacidade da Amazônia de regular o clima tornou-se um interesse econômico nacional.
Mas é justamente quando a floresta demonstra, na prática, o tamanho de sua importância que ressurge a velha agenda da expansão sobre áreas nativas.
Um estudo recente, publicado na revista Science e repercutido por diversos veículos especializados, estima que o eventual fim da Moratória da Soja poderá ampliar em cerca de 17% o desmatamento da Amazônia ao longo da próxima década. A projeção acrescentaria aproximadamente 1,4 milhão de hectares de floresta convertidos para outros usos.
Mais do que discutir um instrumento específico, o estudo expõe uma contradição.
Enquanto a ciência amplia o conhecimento sobre a influência da Amazônia na estabilidade climática do continente, parte do debate público continua presa à lógica segundo a qual derrubar floresta representa, por si só, desenvolvimento.
Essa visão talvez tenha encontrado espaço quando os impactos ambientais pareciam distantes ou difusos. Hoje, eles chegam às planilhas financeiras, aos contratos de seguro, aos custos logísticos, às tarifas de energia, ao preço dos alimentos e às contas públicas.
O clima deixou de ser uma variável abstrata. Passou a integrar o cálculo econômico.
Durante décadas, o Brasil investiu pesadamente em rodovias, hidrelétricas, portos, aeroportos, ferrovias e linhas de transmissão porque compreendia que nenhuma economia prospera sem infraestrutura.
Chegou o momento de reconhecer que a floresta amazônica também faz parte dessa infraestrutura. Ela regula o regime de chuvas que abastece o Centro-Oeste, o Sudeste e parte do Sul do país.
Mantém os chamados rios voadores que sustentam uma das agriculturas mais produtivas do planeta.
Contribui para a geração hidrelétrica. Reduz extremos de temperatura. Protege recursos hídricos. Amortece eventos climáticos cada vez mais intensos.
Sua presença diminui custos invisíveis que só aparecem quando desaparecem. É justamente por isso que a floresta deixou de ser apenas patrimônio ambiental. Ela passou a representar infraestrutura estratégica para a economia brasileira.
A Amazônia produz muito mais do que madeira, alimentos, minérios ou oportunidades industriais. Produz estabilidade. Estabilidade climática. Estabilidade hídrica. Estabilidade energética. Estabilidade logística.
- Estabilidade para a agricultura.
- Estabilidade para a indústria.
- E estabilidade tornou-se um dos ativos mais valiosos da economia contemporânea.
Essa percepção já orienta governos, empresas e investidores em diversas partes do mundo. Países que preservam grandes ecossistemas passaram a reunir vantagens competitivas difíceis de reproduzir. Em um planeta submetido a extremos climáticos cada vez mais frequentes, conservar tornou-se também uma estratégia de produção de riqueza.
Curiosamente, alguns setores brasileiros continuam defendendo políticas concebidas para uma realidade que deixou de existir.
Não se trata de condenar o agronegócio, responsável por parcela expressiva da economia nacional, nem de ignorar sua extraordinária capacidade de inovação. Ao contrário. É justamente a força do setor que exige uma visão de longo prazo. A agricultura brasileira depende da regularidade das chuvas tanto quanto depende da fertilidade do solo. Defender a integridade da Amazônia significa proteger uma das bases naturais que sustentam sua própria competitividade.
O verdadeiro debate, portanto, não opõe produção e preservação. Ele distingue dois modelos de desenvolvimento.
Um ainda mede prosperidade pela velocidade da conversão da floresta. O outro compreende que conhecimento, inovação, bioeconomia, indústria de baixa emissão de carbono e conservação dos serviços ecossistêmicos formam uma mesma estratégia nacional.
O Brasil reúne condições únicas para liderar essa transição. Possui a maior floresta tropical do planeta. Uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo. Um parque industrial consolidado na Amazônia. Capacidade científica crescente.
Uma agropecuária altamente produtiva. Poucos países dispõem dessa combinação. A pergunta que permanece é qual projeto de país desejamos construir.
Um que continue tratando a floresta como obstáculo. Ou outro que reconheça nela uma das principais vantagens competitivas do século XXI. A natureza não participa das disputas ideológicas. Ela apenas responde às escolhas humanas.
As secas históricas, os incêndios, a fumaça, a interrupção da navegação, os prejuízos logísticos e a instabilidade climática já constituem parte dessa resposta. Ignorá-la seria insistir numa economia voltada para um mundo que já ficou para trás.
Reflexão:
Na economia do século XXI, a Amazônia deixou de representar apenas um patrimônio ambiental. Tornou-se um ativo estratégico capaz de produzir aquilo que o planeta mais começa a perder: estabilidade.