Barcelona e o dever da resistência

Acendem-se os alarmes neste momentos da história em que a política deixa de ser apenas disputa de projetos e passa a ser defesa de fundamentos. Barcelona, ao sediar na semana passada, a 4ª Reunião do Fórum Democracia Sempre, parece ter captado esse instante com rara nitidez.

dever da resistencia
(crédito: QUIQUE GARCIA/EPA/Shutterstock)

Não se tratou de um encontro protocolar entre lideranças progressistas. O que se viu foi a tentativa de erguer um dique — ainda frágil, é verdade — diante de uma corrente mais profunda: a naturalização da tentação autoritária.

Hannah Arendt, a filósofa judia da democracia, advertiu que o autoritarismo não se impõe apenas pela força, mas pela erosão gradual das referências que sustentam a vida pública. Quando a verdade se torna relativa, quando o medo substitui o debate, quando a exceção passa a ser regra, o terreno está preparado. O que se segue já não depende de rupturas dramáticas. Avança, muitas vezes, com aparência de normalidade.

Ao reunir Pedro Sánchez, Luiz Inácio Lula da Silva e lideranças da América Latina e da Europa, na semana passada, o encontro de Barcelona pela Democracia sinaliza que parte do mundo político começa a reconhecer o tamanho da fissura. Não se fala mais apenas de divergência ideológica. O que está em jogo são valores estruturantes: o respeito às instituições, a previsibilidade das regras, a integridade dos processos eleitorais e a própria ideia de verdade como bem público

A simultaneidade com o encontro da extrema-direita em Milão não é detalhe. É sintoma. O mundo já não vive uma disputa localizada, mas uma polarização organizada em escala internacional. De um lado, forças que operam pela deslegitimação, pela simplificação agressiva do debate e pela captura emocional das sociedades. De outro, uma tentativa ainda em construção de recompor racionalidade e compromisso institucional.

A chamada Era Trump não inventou essa dinâmica, mas a acelerou de forma decisiva. Ao relativizar normas, tensionar alianças e instrumentalizar a política como espetáculo de confronto, abriu-se uma brecha. E brechas, na história, raramente permanecem vazias.

O debate sobre regulação digital, trazido com ênfase por Lula, talvez seja o ponto mais estratégico dessa agenda. Não se trata apenas de combater desinformação. Trata-se de enfrentar uma arquitetura global de poder que opera fora do controle democrático, influenciando eleições, moldando percepções e atravessando soberanias nacionais com uma eficiência inédita.

Sem controle sobre esse espaço, a democracia torna-se vulnerável em seu núcleo mais sensível: a formação da vontade coletiva.

Ao mesmo tempo, a defesa do multilateralismo ressurge como necessidade prática, não como retórica diplomática. Em um ambiente internacional marcado por decisões unilaterais, sanções seletivas e uso instrumental do direito internacional, restaurar mecanismos de cooperação é condição mínima para evitar a escalada de conflitos e a fragmentação irreversível do sistema.

Mas é preciso rigor. Barcelona não resolve o problema. Não há ali força suficiente para conter, por si só, os efeitos de uma desordem global que envolve Estados, corporações e disputas geopolíticas profundas. Rússia e China avançam de forma silenciosa sobre esse terreno instável. A própria OTAN revela fissuras. E os Estados Unidos, sob o impacto de suas próprias contradições, já não operam como referência inequívoca.

Ainda assim, há algo que não pode ser negligenciado.

A reunião representa um gesto de consciência.

Consciência de que a democracia não colapsa apenas quando tanques ocupam ruas, mas quando a sociedade se habitua à degradação de seus próprios critérios. Quando a mentira se torna ferramenta legítima, quando o adversário vira inimigo e quando o Estado passa a testar, reiteradamente, os limites do aceitável.

Arendt chamaria isso de banalização do mal. Não pelo espetáculo da violência, mas pela rotina da indiferença.

Barcelona, nesse sentido, não é um ponto de chegada. É umar convocação.

Um chamado à responsabilidade política em um tempo em que o risco não está apenas nas rupturas explícitas, mas na lenta acomodação ao inaceitável.

Se haverá, a partir daí, uma mobilização capaz de conter essa deriva, ainda é uma questão em aberto. Mas a ausência dessa reação já não é uma opção sem custo.

Porque, quando os valores que sustentam a vida pública entram em erosão, o que está em jogo deixa de ser apenas o poder.

É a própria possibilidade de convivência civilizada.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

O mapa do resgate – Quem terá coragem de deter Trump?

"Trump não será contido apenas porque é excessivo. Líderes...

Dom Pedro II: a escola que ensina o passado e cobra o futuro

Com mais de 150 anos, colégio histórico Dom Pedro...

ANOTAÇÕES PARA O NOVO LUSTRO DA ECONOMIA BRASILEIRA: 2026 A 2030 -A GRANDE TRANSFORMAÇÃO – Parte VIII

Economia brasileira pressionada por sistemas empresariais mal estruturados, crescimento...

Congresso acelera debate sobre mineração em terras indígenas após decisão do STF

Decisão judicial expõe disputa entre interesses econômicos, direitos indígenas...

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, insira seu comentário!
Digite seu nome aqui