Olho no olho: o assunto é MULHER

Há momentos em que um país precisa olhar para si mesmo sem subterfúgios.

O Brasil encerrou 2025 com 1.568 feminicídios registrados. Quatro mulheres assassinadas por dia. Cada número dessa estatística corresponde a uma vida interrompida, a uma família devastada e a uma pergunta que ainda ecoa na sociedade brasileira: por que continuamos falhando em proteger nossas mulheres?

Essa tragédia não começa com o crime. Ela nasce antes, no território silencioso das violências invisíveis. No controle financeiro que aprisiona. No isolamento da vítima. Na humilhação cotidiana que desqualifica a palavra da mulher. Na cultura que relativiza o medo feminino.

Levntamento indica que o numero de feminicidios no Brasil supera em quase 39 por cento FOTO 04marco2026

Quando o feminicídio acontece, ele já percorreu um longo caminho de permissões sociais e falhas institucionais.

O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo para proteger mulheres. A Lei Maria da Penha estabeleceu um marco civilizatório. A tipificação do feminicídio reforçou o reconhecimento jurídico da violência de gênero.

Ainda assim, os números continuam crescendo. Isso revela uma verdade incômoda. A existência da lei não garante a presença do Estado. Metade dos feminicídios ocorre em municípios com menos de 100 mil habitantes. Em grande parte dessas localidades, faltam delegacias especializadas, casas de acolhimento e estruturas de proteção para mulheres ameaçadas.

Em muitas situações, denunciar significa percorrer dezenas de quilômetros até encontrar uma delegacia. Significa enfrentar o medo sem rede de apoio. Significa retornar para casa sabendo que o agressor continua livre. Quando o Estado não chega a tempo, a violência chega primeiro.

O ASSUNTO É MULHER

Outro dado exige reflexão urgente. Dos mais de 83 mil casos de violência sexual registrados no país, a maioria das vítimas são crianças e adolescentes com menos de 14 anos. Em dois terços das ocorrências, o crime acontece dentro da própria casa da vítima.

Isso revela um problema que ultrapassa a esfera criminal. Estamos diante de uma questão que envolve educação, políticas sociais, cultura e responsabilidade institucional.

O controle público tem um papel essencial nesse processo. Tribunais de Contas, Ministérios Públicos e demais instituições de fiscalização precisam incorporar o enfrentamento à violência de gênero como parte de sua agenda permanente de acompanhamento das políticas públicas.

O pacto nacional de enfrentamento ao feminicídio representa um passo importante ao reunir os três poderes em torno desse compromisso. Mas pactos precisam sair do papel e produzir resultados concretos.

Essa é uma responsabilidade compartilhada. Do Estado, que precisa garantir proteção e justiça. Da sociedade, que não pode tolerar nenhuma forma de violência. E dos homens, que precisam assumir seu papel na transformação de padrões culturais ainda marcados pelo machismo.

Não há neutralidade possível diante desse tema. Quando uma mulher é assassinada por ser mulher, não estamos diante de um drama individual. Estamos diante de uma falha coletiva. Por isso é preciso falar com clareza. Olho no olho.

O assunto é mulher. O assunto é vida. E a proteção da vida precisa ser uma prioridade absoluta do Estado brasileiro.

Yara Amazônia Lins
Yara Amazônia Lins
Yara Amazônia Lins é conselheira e presidente do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) e Diretora da Atricon. Pós-graduada em Ciências Contábeis pela UFAM e reúne um portfólio robusto em Espírito Publico nos seus mais de 40 anos de serviços prestados ao TCE-AM. Em seu atual mandato tem direcionado esforços, dentro das competências do órgão e da função que ocupa, para maiores realizações de valorização da Amazônia e da preservação do Meio Ambiente.

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