Intentona Fascista

O processo não acabou, nem acabará rapidamente. Como sociedade, precisamos seguir atentos para não rasgarmos a oportunidade de superar contundentemente esta condição. Não há liberdade sem vigilância; não há diálogo sem a capacidade de ouvir. Entretanto, não se pode dar voz ao que é errado e criminoso.

Por Augusto Cesar Rocha
_

A primeira vez que tive contato profundo com o tema Política foi para lecionar a disciplina Política Industrial e Inovação Tecnológica, há cerca de 20 anos. Antes (e depois) disso, tive a oportunidade de implementar softwares para executar políticas públicas ou participar de discussões de legislações, além, é claro, como cidadão ou estudante.

Desta forma, tenho me envolvido, ora mais, ora menos, com questões acadêmicas e práticas neste campo. Por esta trajetória, aprecio começar reflexões com conceitos básicos, daí o título, pois uma intentona é um “cometimento temerário”; “plano insensato”; “conspiração para revolta ou motim, especialmente se frustrados”, conforme o Dicionário Houaiss.

A tentativa de golpe de Estado que o Brasil sofreu era previsível e plausível, mas um misto de sentimento democrático e autoritário, que perpassa o ambiente político nacional, levou a uma mansidão no trato dos declarados golpistas. Tomara que o rastro de destruição que parece ter assustado a quase totalidade do país seja suficiente para nos apartarmos dos destruidores da democracia e escolhermos lados para as nossas histórias pessoais.

Certamente nossa democracia é imperfeita, como todos os arranjos humanos, mas ao relembrarmos de lideranças nefastas para a humanidade e os seus rastros, como a de Franco (Espanha) ou de Mussolini (Itália) ficará fácil tomar um lado no que aconteceu. O repúdio eloquente de todos que apreciam a liberdade, frente ao que se tentou, é fundamental para que possamos colocar luz sobre as trevas. A escuridão que muitos gritavam (e gritam) favoravelmente, como hipnotizados ou conscientes, precisa ser combatida com veemência.

A história é feita por atitudes tomadas nos momentos certos. Cada membro da sociedade tem um papel para defender, podendo executá-lo para propósitos nobres ou vis. Nos momentos críticos, haverá massas que se moverão pelas vantagens de curto prazo. Precisamos perceber que aqueles senhores e senhoras que fazem política ou Política nos isolam das trevas do autoritarismo – e, apenas isso, já é muito. Precisamos nos posicionar apoiando a Política e combatendo os Antipolíticos ou os que se dizem apolíticos. Ter a firmeza e a serenidade exigida pelo momento é fundamental para enfrentar os golpistas e, simultaneamente, acalmar os ânimos.

O processo não acabou, nem acabará rapidamente. Como sociedade, precisamos seguir atentos para não rasgarmos a oportunidade de superar contundentemente esta condição. Não há liberdade sem vigilância; não há diálogo sem a capacidade de ouvir. Entretanto, não se pode dar voz ao que é errado e criminoso. Precisamos atualizar as reflexões sobre liberdade, fascismo, comunismo, democracia e autoritarismo. Discursos do século XIX e XX não resolverão por si os problemas do século XXI e as massas de manobra seguem ativas. O problema não acabou.

Augusto Rocha 1 e1653258177196
Augusto Rocha é professor da UFAM e parceiro fundador do portal Brasil Amazônia Agora
Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

Artigos Relacionados

O imposto muda de endereço. E como fica o interior do Amazonas?

“A reforma tributária altera a distribuição das receitas e exige que governo, prefeituras e setor produtivo organizem desde já o financiamento do desenvolvimento nos municípios”.

Abraciclo lança guia para orientar uso seguro de veículos elétricos de duas rodas nas cidades brasileiras

"Publicação reúne recomendações sobre segurança viária, regras de circulação...

Adalberto Luís Val, um cientista que ajuda o mundo a compreender a Amazônia

“Reconhecido internacionalmente, pesquisador do Inpa construiu uma trajetória que...