Atoleiro secular

​“A situação em que nos encontramos é um atoleiro secular, de uma enorme briga de quem não está na região Amazônica, falando sobre algo que não conhece e construindo florestas de desinformação. Quem termina de fato pagando a conta do presente é quem optou por viver, explorar, ser explorado e morrer na região, salvo os alvos de sempre: as elites econômicas que encontraram brechas em um emaranhado de regras, com suas condutas nem sempre admiráveis, apesar de não faltar os admiráveis que dificilmente são reconhecidos ou demonstrados para espelhamento.”

Augusto Cesar Barreto Rocha
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Estamos em um atoleiro secular, sem saber como ou o que é desenvolver a Amazônia. Vários e vários planos foram concebidos e pouco ou quase nada deles foi implementado até o fim. Daqueles que foram, poucos tiveram algum sucesso relativo. Dentre os positivos, está a indústria da Zona Franca de Manaus. Dentre os fracassos, está o projeto Calha Norte.

Temos vivido uma “gestão improvisada”, como assevera o filósofo Alfredo Lopes. Ou uma necessidade de usar o “conhecimento da floresta”, como afirma o professor Niomar Pimenta. O ex-Ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, indica que o desmatamento ilegal “é inaceitável”. Já a ex-Ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira encontrou algo do caminho na redução do desmatamento. Ao admirar estas quatro visões, concluo que seguimos no atoleiro.

Afinal, temos baixíssimo Índice de Desenvolvimento Humano e somos grandes geradores de impostos. Se protegemos ou não a floresta, não conseguimos trazer riqueza para as populações locais, mas conseguimos sugá-las e até deixá-las, literalmente, sem oxigênio. Os “pensadores”, “comentadores” e “prescritores” de soluções para a Amazônia seguem distantes da realidade local e, em geral, querem sugar seus recursos, que é o que aparece nos indicadores macroeconômicos, como já demonstrado por pesquisadores como Márcio Holland.

A adoração de todos nós pela floresta deveria ser somada a uma adoração com trabalho das pessoas e pelas pessoas que vivem na região, desenvolvendo a sua humanidade. Dissociar as duas coisas é seguir na construção da desinformação ou da informação enviesada por interesses não confessáveis. Como indicado por Eliot Higgins, estamos “sentados no precipício da era da desinformação”, como uma transição da “era da informação”.

A situação em que nos encontramos é um atoleiro secular, de uma enorme briga de quem não está na região Amazônica, falando sobre algo que não conhece e construindo florestas de desinformação. Quem termina de fato pagando a conta do presente é quem optou por viver, explorar, ser explorado e morrer na região, salvo os alvos de sempre: as elites econômicas que encontraram brechas em um emaranhado de regras, com suas condutas nem sempre admiráveis, apesar de não faltar os admiráveis que dificilmente são reconhecidos ou demonstrados para espelhamento.

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Augusto Cesar Barreto Rocha é Professor da UFAM.

Na busca de uma das saídas, acontecerá no próximo dia 08/02, o primeiro “Diálogos Amazônicos – Potenciais da Bioeconomia na Amazônia” (https://eesp.fgv.br/evento/dialogos-amazonicos-potenciais-da-bioeconomia-na-amazonia), onde algumas das pessoas supracitadas estarão presentes e outras delas representadas por suas ideias. Fica o convite para assistir pela Internet. Se conseguirmos começar a traçar uma estratégia para sair deste atoleiro, será uma grande vitória. Será que existem mais pessoas para adorar conosco esta causa?

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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