2022: desejamos mudar?

“Algo deve mudar para que tudo fique como está” é uma frase de Giuseppe Tomasi di Lampedusa que poderá nortear 2022. O momento de flagrante decadência em que estamos, que pode ser percebida pelo desprezo da vida, o desprezo da saúde, o desprezo da ciência, o desprezo pela fome ou desgraça alheia e até o desprezo pelo outro que não é igual a si. Esta situação pode ajudar a compreender os desafios que se apresentarão neste novo ano.

O colapso gradual dos sistemas que dizem que apoiam o desenvolvimento humano na região amazônica poderia ser enfrentado com as “políticas que funcionam”, como diria Tony Blair, mas o que vemos é a insistência na adoção das políticas que já sabemos que não funcionam. A questão é que nos falta a decisão do que funciona. Ou será que não? Algo deve mudar, para que tudo fique como está.

Mesmo com tudo o que está se passando, não parece haver elementos de perturbação profunda nas lideranças. Predominam os ares da normalidade. A indignação ainda não é ampla. Parece que o que vai acontecer é que começaremos as nossas decisões de ano novo tal qual as dietas mais tradicionais, que nunca funcionam, porque nunca começam, pois a data é sempre futura. Natural para o “país do futuro”. Aquele que nunca chega.

Aqui na Amazônia é diferente. Criamos o hábito de afirmar que estamos numa região rica, mas que, em verdade, passa fome. Pior do que ter a felicidade sempre entregue para o futuro é afirmar que vivemos na riqueza, enquanto passamos fome no presente. Entretanto, se há vida, há esperança. Precisamos começar um ano com esperança. Precisamos começar o ano com o ânimo de quem quer ser parte da mudança, propondo, apontando, trabalhando e construindo um país melhor. Se queremos que algo se transforme, cabe a cada um de nós. Assim, estimo um 2022 com vida e trabalho abundantes para todos que assim desejarem.

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Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM.
Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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