“Aliciamento, chantagem e estímulo à autolesão exigem uma resposta articulada de famílias, escolas, serviços de saúde e plataformas, com escuta, proteção e atendimento acessível.“
Por Cristy Ellen Lopes, psicóloga e publisher do Brasil Amazônia Agora
Uma criança pode estar em casa, a poucos metros dos pais, e enfrentar uma situação de violência que nenhum adulto ao redor conhece. Entre conversas de jogos, mensagens privadas e grupos fechados, uma aproximação aparentemente amistosa pode se transformar em pressão, ameaça e medo. Para quem observa de fora, o celular continua sendo apenas um objeto nas mãos. Para quem está sendo coagido, ele pode se tornar o lugar de uma ameaça que acompanha o dia inteiro.
A reportagem de Bárbara Sá, da Folha de S.Paulo, sobre investigações da Polícia Civil paulista descreve casos de aliciamento e chantagem em ambientes digitais associados à autolesão e ao suicídio de adolescentes. O material merece atenção pelo mecanismo de violência que revela. Pessoas se aproximam, estabelecem vínculos e passam a explorar informações íntimas e fragilidades para impor exigências. A promessa de pertencimento pode dar lugar ao medo de exposição e à sensação de que pedir ajuda agravará tudo.
É preciso abordar esse sofrimento com precisão. O suicídio tem múltiplos determinantes, e atribuí-lo exclusivamente à internet empobrece a compreensão e a prevenção. Tampouco um episódio permite concluir que uma família foi negligente. Há situações que permanecem ocultas mesmo em relações cuidadosas. A pergunta que deve orientar nossa resposta é como ampliar as possibilidades de perceber o sofrimento, interromper a violência e oferecer cuidado.
O medo de contar também precisa ser ouvido
Na adolescência, amizades, reconhecimento e autonomia ocupam um espaço importante. A vida digital participa dessas experiências e pode oferecer convivência, aprendizagem e apoio. Justamente por isso, a proteção precisa considerar a qualidade das relações estabelecidas, além do tempo passado diante da tela.
Uma conversa sobre com quem o filho joga, o que acontece nos grupos e como ele se sente depois dessas interações pode abrir espaço para relatos que uma fiscalização restrita a horários não alcança. Essa aproximação pede curiosidade respeitosa, regras compreensíveis e supervisão compatível com a idade. Também pede que os adultos examinem sua própria disponibilidade para ouvir.
A criança ou o adolescente precisa saber que poderá pedir ajuda mesmo depois de ter desobedecido a uma orientação, compartilhado algo íntimo ou confiado em alguém que o enganou. A responsabilidade pela ameaça pertence a quem a pratica. Transformar a revelação em interrogatório ou humilhação pode tornar mais difícil a continuidade da conversa.
Restringir um contato perigoso pode ser necessário, mas a proteção precisa vir acompanhada de explicação e acolhimento. Quando a única consequência percebida é o castigo, corre-se o risco de que o problema volte a ser escondido. A família também precisa de apoio para atravessar o susto, reconhecer seus limites e procurar atendimento.
Sinais que merecem atenção e cuidado
Isolamento acentuado, perda de interesse por atividades habituais, alterações de sono, queda no rendimento escolar, lesões sem explicação e manifestações de desesperança merecem atenção. Esses sinais não confirmam, isoladamente, uma situação de violência ou um diagnóstico. Indicam a necessidade de aproximação e avaliação, especialmente quando se acumulam ou representam uma mudança importante no comportamento.
A autolesão pode ocorrer sem intenção de morrer, mas precisa ser levada a sério e avaliada por profissionais. Não deve ser tratada como encenação, falha moral ou desobediência. Também não autoriza prever um desfecho inevitável. Há tratamento, possibilidades de recuperação e caminhos para reconstruir vínculos de confiança.
Quando houver preocupação, perguntar de maneira direta e acolhedora se o adolescente pensa em se machucar ou tirar a própria vida ajuda a compreender o que está acontecendo.
A Organização Mundial da Saúde esclarece que essa pergunta não coloca a ideia na cabeça de alguém. Diante de uma revelação de risco, é necessário buscar ajuda e explicar que outras pessoas precisarão participar de sua proteção, preservando sua intimidade.
A escola precisa de uma rede que responda
Professores podem perceber mudanças na convivência, ausências e dificuldades que escapam a outros adultos. Para exercer esse papel, precisam de formação, tempo e procedimentos claros. Atribuir-lhes a responsabilidade de identificar e resolver sozinhos situações complexas aumenta a sobrecarga e deixa o atendimento dependente de iniciativas individuais.
Cada escola deveria saber a quem recorrer, como acolher um relato em particular e de que maneira acompanhar o encaminhamento. A articulação com saúde, assistência social e Conselho Tutelar precisa existir antes da crise. Se houver suspeita de violência no próprio ambiente familiar, o acionamento dos responsáveis exige cuidado e orientação da rede de proteção.
Educação digital deve incluir privacidade, consentimento, reconhecimento de manipulação e formas seguras de pedir ajuda. Conversas sobre saúde mental precisam evitar imagens de lesões, descrições de métodos e exposição de casos identificáveis. Colegas podem procurar um adulto quando percebem sofrimento, sem assumir a obrigação de cuidar sozinhos de um amigo em risco.
Plataformas e autoridades têm responsabilidades concretas
As famílias não controlam a arquitetura dos aplicativos, seus sistemas de recomendação ou a velocidade de resposta às denúncias. A proteção depende também de como esses serviços são construídos e administrados. O ECA Digital prevê medidas de prevenção de riscos, privacidade e supervisão, além de responsabilidades para os fornecedores. Sua efetividade precisa ser acompanhada por fiscalização e transparência.
É necessário cobrar canais de denúncia compreensíveis, resposta a ameaças e mecanismos que dificultem contatos abusivos. Do poder público, cabe exigir atendimento em saúde mental, equipes preparadas e continuidade do cuidado. Uma família que procura ajuda precisa encontrar orientação sobre o próximo passo e acompanhamento depois do primeiro atendimento.
Na Amazônia, essa organização deve considerar distâncias, deslocamentos por rio, diferenças culturais e condições de comunicação. Proponho que estados e municípios definam fluxos locais que articulem escolas, atenção básica e serviços especializados, com apoio remoto quando adequado e caminhos presenciais para as urgências. A viabilidade precisa ser pensada para cada território, junto às comunidades.
O acompanhamento dessa política pode começar por perguntas objetivas. Quanto tempo uma criança espera por atendimento? Quem verifica se o encaminhamento foi realizado? Qual equipe acompanha sua volta à escola? Que apoio a família recebe? As respostas ajudam a distinguir uma campanha passageira de um serviço que permanece disponível.
O cuidado continua depois que o contato abusivo é interrompido. A criança pode precisar de tempo para recuperar segurança, retomar a convivência e falar sobre o que viveu. Famílias, professores e profissionais devem poder acompanhá-la nesse percurso, sem reduzir sua identidade à violência sofrida. É nessa continuidade, feita de presença, atendimento e responsabilidades assumidas, que a prevenção ganha consistência.
Onde buscar ajuda
- ● Perigo imediato, tentativa de suicídio ou ferimento grave: permaneça com a pessoa, reduza com segurança o acesso a meios de se ferir e acione o SAMU, 192, ou procure uma emergência.
- ● Sofrimento emocional ou autolesão: procure uma Unidade Básica de Saúde ou um CAPS, incluindo o CAPSi onde disponível, para avaliação e orientação.
- ● Apoio emocional: o CVV atende pelo 188, gratuitamente, 24 horas. Esse apoio não substitui atendimento de emergência.
- ● Suspeita de violência ou aliciamento: procure o Conselho Tutelar, a Polícia Civil ou o Disque 100 e denuncie à plataforma. Evite circular imagens íntimas ou violentas em grupos; solicite orientação às autoridades para preservar informações com segurança.
Fontes de consulta
1. Folha de S.Paulo, reportagem de Bárbara Sá sobre investigações do Noad, consultada nos recortes enviados à redação.
2. Ministério da Saúde. Suicídio — Prevenção.
3. Organização Mundial da Saúde. Suicide and self-harm.
4. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Violência contra crianças e adolescentes: denunciar é um ato de proteção.
5. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. ECA Digital: conheça as regras de proteção de crianças e adolescentes no ambiente online.