“O caso Felca não é um ponto fora da curva. É o espelho de uma sociedade que precisa reaprender a cuidar. Entre filtros e feridas, revela-se a infância que se perde — não por falta de leis, mas por falta de consciência”
“Quando o feed consome a infância”
A denúncia que escancarou o problema
Recentemente, o influenciador Felca publicou um vídeo contundente denunciando a superexposição de crianças nas redes sociais. O conteúdo revelou práticas de adultização infantil, monetização da imagem de menores e uma preocupante erotização precoce — tudo sob o olhar permissivo (ou ausente) dos pais.
O vídeo gerou ampla repercussão e mobilizou o Ministério Público e o Congresso Nacional. Mas, mais do que indignação pontual, o caso exige uma reflexão profunda sobre o papel da família como agente de letramento social.
Letramento social começa em casa
Letramento social é o processo pelo qual aprendemos a viver em sociedade: compreender limites, respeitar o outro, desenvolver empatia e senso crítico. E esse processo começa — e deveria ser consolidado — no ambiente familiar.
Portanto, o letramento social se inicia no convívio familiar, onde a criança aprende os valores e as normas que regem a sociedade em que vive, inclusive no ambiente digital.
Quando pais expõem seus filhos em redes sociais sem considerar os impactos emocionais, éticos e legais, estão falhando em sua função primordial: proteger e educar. A infância não é palco. Não é vitrine. Não é conteúdo.
Acompanhe aqui o vídeo
O que diz a lei — e o que os pais ignoram
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é claro: crianças têm direito à dignidade, à imagem, à privacidade e à proteção contra qualquer forma de exploração. A Constituição Federal reforça esses princípios. E o Marco Civil da Internet estabelece responsabilidades sobre o uso da rede.
Práticas como sharenting, que envolvem a exposição excessiva de dados e imagens de menores em redes sociais pelos pais ou responsáveis legais, tem gerado conflitos entre o poder familiar e a proteção desses direitos.
O arcabouço legal pertinente e vigente é frequentemente ignorado pelos próprios responsáveis legais. Pais que deveriam zelar pela integridade dos filhos acabam se tornando gestores de audiência, produtores de conteúdo e, em alguns casos, cúmplices de uma exposição que pode gerar danos irreversíveis.
Os riscos da exposição digital precoce
- Identidade fragmentada: A criança passa a se ver como produto, não como sujeito.
- Privacidade violada: Sem limites claros, tudo vira conteúdo.
- Pressão emocional: Comentários, comparações e métricas de engajamento afetam a autoestima.
- Vulnerabilidade jurídica e física: A imagem pode ser usada indevidamente, inclusive por redes de exploração.
Não basta culpar as plataformas
É legítimo cobrar das plataformas digitais maior controle sobre conteúdos infantis. Mas terceirizar essa responsabilidade é perigoso. A proteção da infância começa no lar. E é no cotidiano — nas escolhas aparentemente banais — que se define o futuro emocional e social de uma criança.
Pais precisam ser educadores sociais. Precisam entender que o que parece “fofo” ou “engraçado” pode ser, na verdade, uma violação de direitos. Precisam parar de medir a infância em curtidas.
O silêncio que grita
O caso Felca não é um ponto fora da curva. É o espelho de uma sociedade que precisa reaprender a cuidar. Entre filtros e feridas, a infância está se perdendo — não por falta de leis, mas por falta de consciência.
Que esse alerta não se dissolva em mais um scroll. Que ele gere desconforto. E que esse desconforto gere mudança.

