Amazônia tem lenta recuperação pós seca comprometendo resiliência do bioma

A intensificação das secas na Amazônia está enfraquecendo a maior floresta tropical do planeta, colocando-a em risco de um “ponto de não retorno”. Esta é a conclusão alarmante de um estudo recente publicado pela revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), que investigou os impactos da crescente frequência de secas severas nas últimas décadas sobre o bioma.

O estudo utilizou imagens de satélite coletadas entre 2001 e 2019 para monitorar a evolução da vegetação da floresta mês a mês. Os pesquisadores focaram em como a frequência, intensidade e duração das secas afetaram a estabilidade da vegetação amazônica. Este período incluiu quatro episódios de secas extremas, cuja probabilidade natural seria de ocorrer uma vez a cada 100 anos, destacando a anormalidade e a severidade das condições climáticas enfrentadas pela região.

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Foto divulgação

Principais descobertas

Uma das descobertas mais preocupantes foi que 37% da vegetação madura nas áreas estudadas apresentou uma recuperação mais lenta após as secas. Isso sugere que a capacidade da floresta de se regenerar está sendo comprometida. O sudeste da Amazônia, uma região particularmente afetada pelo desmatamento e degradação, mostrou-se especialmente vulnerável a um “evento de inflexão”. Tal evento pode ser descrito como um ponto crítico onde a floresta tropical poderia se transformar em um ecossistema completamente diferente e mais seco, perdendo suas características atuais.

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(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Impacto das secas frequentes

As secas mais frequentes e intensas têm limitado a capacidade de recuperação da floresta durante as estações chuvosas. Nos últimos 20 anos, a Amazônia experimentou secas de intensidade extrema em 2005, 2010, 2015 e 2016. Essas secas severas não apenas dificultam a recuperação da vegetação, mas também aumentam a vulnerabilidade a incêndios florestais, que podem devastar grandes áreas de floresta.

A desaceleração da taxa de recuperação da vegetação é vista pelos cientistas como um “indicativo precoce” de um colapso ecossistêmico da Amazônia. Os autores do estudo ressaltam que os dados de satélite analisam apenas as copas das árvores, não capturando o que ocorre no sub-bosque. Isso significa que os danos observados podem ser apenas a ponta do iceberg, com condições possivelmente mais críticas nas camadas inferiores da floresta.

Johanna van Passel, principal autora do estudo e pesquisadora da Katholieke Universiteit Leuven, na Bélgica, explicou ao Guardian: “As árvores são a última parte do ecossistema a apresentar pontos de inflexão porque têm o ciclo de vida mais longo e são mais capazes de sobreviver. Se já estamos vendo um ponto de inflexão se aproximando no nível macroflorestal, então deve estar piorando no nível micro.”

Implicações futuras e necessidade de ação

As conclusões deste estudo sublinham a urgência de implementar medidas para mitigar os impactos das mudanças climáticas na Amazônia. A perda de resiliência da floresta frente às secas intensas e frequentes destaca a necessidade de ações globais coordenadas para preservar este ecossistema crucial. Sem intervenções eficazes, a Amazônia pode estar à beira de um colapso irreversível, com consequências devastadoras não apenas para a biodiversidade local, mas também para o clima global.

Este estudo serve como um alerta para a comunidade internacional sobre a fragilidade crescente da Amazônia. A manutenção da resiliência deste bioma essencial depende de esforços concertados para reduzir o desmatamento, controlar incêndios florestais e combater as mudanças climáticas. A proteção da Amazônia é vital para o equilíbrio ecológico do planeta e para o bem-estar das futuras gerações.

*Com informações CLIMA INFO

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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