Cadê o subsídio para quem necessita?

“Se ficarmos discutindo no meio do caminho se dois mais dois são quatro, seremos tragados pelos cadáveres das pessoas e das empresas. Tomara que depois do caos surja a ordem, porque o progresso já se foi.”

——Augusto César Barreto Rocha (*)——

Estamos em um ambiente de preparação do pandemônio e do caos. O Banco Central dos EUA fala 1/3 dos trabalhadores de lá perdendo o emprego. Existe uma complexidade de crise jamais visitada e temos dificuldade de lidar com o desconhecido, apesar de ele acontecer a cada instante. Normalmente usávamos o passado como referência, mas agora existem pouquíssimas certezas. 

Causa estranheza quando a única certeza que há é a necessidade de isolamento social para contenção da Covid-19 e ela encontra resistência em muitas lideranças. Assim, o caos se aproxima mais rapidamente, pela ausência de uma mínima união. Depois de o mundo todo ter sido contaminado, ter a ilusão que não é necessário o isolamento das pessoas chega a ser patético.

Ausência de trabalho…

Por outro lado, a maior parte dos brasileiros não consegue trabalhar em “home office” e a maior parte das empresas não tem condições financeiras de manter o pagamento dos trabalhadores sem seus faturamentos. Desconhecer este segundo fato da realidade é quase tão patético quanto o desconhecimento do primeiro. Está instalado um conflito que é mais estranho do que o momento em que vivemos.

​Talvez não tenha nada de estranho, afinal, não temos muito apego ao estudo ou a ciência estatística ou financeira. São campos do conhecimento que o brasileiro médio não gosta (ou “afegão médio”, como preferem alguns jovens). A extensão do estrago não é sabida. No início da crise, especialistas falavam em crescimento do PIB de 0,2%. Naquele momento falei timidamente em 15% de encolhimento, depois mudei para -20%, por uma simples regra de três entre meses parados versus ativos, que é o que cabe explicar neste espaço. 

Nosso problema é que os achismos imperam sobre qualquer lógica.Nem regra de três se usa. Vou ficar com 17%, que é 2 dividido por 12, para sumarizar em duas linhas o que em si demandaria muito mais espaço.Nos EUA, o Wall Street Journal, de 05/04/20, demonstra que 29% da economia dos EUA está parada e analisa esta realidade.

… leva a uma recessão 

A The Economist coloca três cenários possíveis como desdobramento: recessão em forma de V, U ou L. V – afunda e volta rapidamente; U – afunda e, passa um tempo e retoma rapidamente; e L – afunda e por lá fica por um bom tempo. No Brasil temos o costume de escolher os caminhos que levam a pior alternativa possível. Tudo indica que nos arrastamos para o modelo L, com o conjunto de ações tomadas até aqui.

​Tentando manter a esperança, lembro que do caos vem a ordem. Precisaremos de alguma lucidez para enfrentar a complexidade do desconhecido, para sair do pandemônio que temos. As medidas até agora não são suficientes para o enfrentamento dos problemas. Fala-se em R$ 600 como se eles fossem compatíveis com a renda da economia informal e não são. Uma diária de um trabalhador braçal na economia informal é de R$ 50 a R$ 100. Esta economia desapareceu. O salário mínimo é de R$ 1.045. Auxílios abaixo do salário mínimo são abaixo do mínimo. Não substituirão a renda perdida.

… que demanda subsídios, mas…

Por um conjunto de desvios da história, odiamos subsídio. Entretanto, chegou a hora dele. Por outras questões da história entendemos que o déficit não é bom, mas chegou a hora dele. Estamos em uma guerra não só contra o vírus, mas contra a ignorância e o desconhecido que é o rompimento das relações sociais estáveis, com saques e assaltos, que são desdobramentos plausíveis das ações do presente. É necessário um enfrentamento mais vigoroso do problema, pois a economia do Brasil está muito além do home office (que sequer é pronunciado corretamente por todos nós e não tivemos a capacidade de achar a nossa própria expressão, de tão estranho que é para a maioria).

​Precisaremos ter a coragem de encarar muito subsídio. Precisaremos encontrar a capacidade de enfrentar anos da ignorância em relação a matemática, estatística, finanças e a saúde, pois, mesmo usando todo o dinheiro e ciência, esta é uma crise de difícil enfrentamento. Se ficarmos discutindo no meio do caminho se dois mais dois são quatro, seremos tragados pelos cadáveres das pessoas e das empresas. Tomara que depois do caos surja a ordem, porque o progresso já se foi.

(*) Professor da UFAM.

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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