A boa nova no Sínodo da Amazônia

Há cinco anos, tive a oportunidade de reencontrar o cardeal Dom Cláudio Hummes, com quem pude trabalhar na PUC-SP nos anos 90. O encontro em Manaus se deu quando Dom Sergio Castriani, arcebispo de Manaus, foi fazer sua primeira visita pastoral à Capela de Nossa Senhora da Amazônia, em novembro de 2014. Acompanhado de Dom Cláudio, ele iniciou o processo de transformação da Capela em Santuário, um momento importante no projeto de consolidação da devoção a Maria, Mãe que cuida e protege, associada ao Bioma Amazônia, à nossa gente, às populações tradicionais, especialmente as múltiplas etnias que anseiam pelos benefícios da civilização a despeito do paradigma predatório que há mais de 500 anos não acolhe a condição indígena nem lhe abre as portas da frente de nossa cultura.

Louvado seja

Dom Cláudio contou que, na visita feita ao Brasil, em 2013, o Papa Francisco, logo depois de eleito, fez uma longa reunião sobre a Amazônia – com os bispos e cardeais presentes ao Rio de Janeiro – manifestando sua preocupação com a qualidade de vida dos ribeirinhos e povos tradicionais, da Amazônia, o tráfico humano, o comércio de órgãos, a prostituição infantil, o trabalho escravo, a falta de sacerdotes e a perda de fiéis. Momento seguinte, com a ajuda de Dom Cláudio, coletor de informações, foi escrita a encíclica Laudato Si, uma carta aos habitantes da terra sobre Ecologia Integral, um conceito que não separa economia e parâmetros socioambientais.

Jesus curumim

A devoção a Maria Cabocla, Mãe de Jesus Curumim, pilotada pelo saudoso padre Reneu Stefanello, em Manaus, desde 2013, teve a mesma inspiração que desembarcou no Sínodo da Amazônia, iniciado neste domingo. Cuidado com nossos recursos naturais, proteção do banco genético, denúncia das mazelas vividas pelos grupos étnicos, a depredação premeditada com queimadas criminosas, grilagem de terra, violência na mata devastada e outros problemas socioambientais. Mas na visão de Francisco a questão é mais grave e fecunda: ele toma o sentido de Natureza dos pré-socráticos – que tratam a Physis num sentido de inclusão da condição e consciência humana –  em unidade harmônica entre homemNatureza. Trata-se, pois, de um contexto mais amplo, onde o Sumo Pontífice enxerga a condição humana desintegrada, abortada das prioridades da modernidade. A corrupção com as verbas públicas que abarcam governos recentes do PT, PSDB e MDB, determinaram, por exemplo, no Brasil, o desemprego, o maltrato das tradições perdidas por comunidades indígenas impactadas por grandes obras, a robotização que exclui as pessoas,  deixando nesses movimentos o rastro da depressão e ansiedade mórbida, as drogas, o suicídio e o abandono em todas as suas facetas.

Ecologia integral

Não há pressuposto neocolonialista na Ecologia Integral, muito menos a necessidade da ABIN, a Agência Brasileira de Informação, monitorar os celulares episcopais, temer a infiltração de comunistas nas decisões do Vaticano, muito menos identificar no trabalho de missionários com as populações indígenas atitudes contrárias ao regime. Não podemos esquecer que a primeira experiência de fraternidade radical está descrita no livro dos Atos dos Apóstolos – ninguém dizia ser seu aquilo que possuía -, aqui não se repete a falácia do “Nós contra eles”. Estamos diante de um fato de compreensão extremamente simples, a Boa Nova de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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