JCAM, a manchete que antecipou a Bioeconomia na Amazônia

“Um jornal que fez do comércio a universalização do conceito de mercadoria, seu valor de uso e de troca em todas as dimensões. Com simplicidade e comprometimento cívico, o JC acompanhou a ascensão e o tombo das folias do látex e ainda hoje defende, divulga, debate e estimula o Programa de Desenvolvimento chamado Zona Franca de Manaus.”

Alfredo Lopes (*)
__________________

WhatsApp Image 2020 12 31 at 13.51.18
Alfredo Lopes

Como celebrar o 117º aniversário do Jornal do Comércio sem visitar a história que este matutino registrou em suas páginas centenárias? Com várias décadas sob a direção do historiador e jornalista Vicente Reis, pai do governador do Amazonas, Arthur Reis (1964-1967), o jornal vive desde suas origens o dia-a-dia dos paradoxos de nossa economia amazônica, sempre marcada por altos e baixos da presença tímida do Brasil em seu planejamento e gestão. Recomendo, a propósito , o acesso fácil de sua memória cotidiana no acervo digital da Biblioteca Nacional disponível de forma organizada e com boa qualidade de leitura na web. Ali veremos e revivemos a cultura, a contradição da vida política, a reclamação do povo contra a violência, os bondes e os ônibus precários, a tentativa de emancipação administrativa do Rio Purus, em suma, um cotidiano sem muitas diferenças estruturais com nossos dias. Um jornal que fez do comércio a universalização do conceito de mercadoria, seu valor de uso e de troca em todas as dimensões. Com simplicidade e comprometimento cívico, o JC acompanhou a ascensão e o tombo das folias do látex e ainda hoje defende, divulga, debate e estimula o Programa de Desenvolvimento chamado Zona Franca de Manaus.

WhatsApp Image 2020 12 31 at 13.51.19

O espelho quebrado

Recomendo, também, e sempre a obra “A Grande Crise”, de Antônio Loureiro(2008), leitura indispensável para o conhecimento sociológico, político e econométrico da debacle do extrativismo na Amazônia no início do Século XX. Entre diversos recortes, Loureiro reporta os segmentos que se beneficiaram com a comercialização da borracha, sem qualquer empenho em planejar seus desdobramentos: o aparelho estatal, que arrecadou 25% de impostos; os exportadores, que compravam a borracha dos aviadores (os intermediários) para revendê-la no mercado exterior; e os intermediários, especuladores das bolsas de Nova York e Londres. Esses lucros reverteram em benefício de outras regiões brasileiras, ampararam a produção cafeeira do Sudeste e serviram para desenvolver as empresas de plantação asiática. Nesse contexto, é injusto e insensato crucificar o mercenário inglês Henry Wickham pelo sequestro das sementes de seringueira, razão formal e aparente da decadência do Ciclo da Borracha e da consequente crise em que entraram os Estados da região.

O culpado (não) são os índios

Wickham foi ágil e talvez inescrupuloso para observar por longos anos e assimilar a tecnologia milenar das etnias Mura, inventores do paneiro feito de folhas secas e cipós para armazenar farinha, sempre seca – pois vedavam a umidade – que permitia atravessar o período das enchentes que tornam o alimento escasso na Amazônia. Se impedem que umidade estrague a farinha, pensou o mercenário inglês, ficou muito fácil transportar as sementes da seringueira, a Hevea brasiliensis, para Inglaterra e daí, depois de melhorar as sementes no Museu Botânico de Kew, o passo seguinte foi cultivar no modo extensivo as seringueiras nos domínios tropicais da Cora Britânica, deixando-nos literalmente a ver navios, o modal logístico montado na Escócia, sob encomenda, para as condições específicas dos rios da Amazônia.

Antes tarde do que jamais…

É importante destacar que, além da hévea, os viajantes europeus e suas expedições ditas científicas levaram cacau, batatas, tabaco, abacaxi, caju, goiaba, maracujá, mandioca, macaxeira, açaí, guaraná, pupunha, além de quinino, cinchona, ipeca, jaborandi, capim-santo… Muitas dessas espécies voltaram em forma de alimentos e medicamentos beneficiados, com agregação de valor, pela indústria estrangeira, europeia e norte-americana. Mais de 100 anos depois nós descobrimos a roda da Bioeconomia e queremos/precisamos, urgentemente, saber do que se trata. Sem o mesmo apetite empreendedor demoramos a transformar os itens que importamos para a Amazônia brasileira e países da América tropical. Alguns deles fizeram as bases do agronegócio brasileiro, ou da explosão do açúcar e do álcool a partir da cana e da economia cafeeira. Tecnologia e inovação, sobretudo após a consolidação da Embrapa, nos anos 70. Nesta escolha o Brasil abraçou um projeto e deu no benefício universal.

Sua Excelência, o JC

Com atraso e com definição e decisão de abraçar, a Bioeconomia na Amazônia tem tudo para empinar. A começar pela fruticultura com a grande variedade de produtos da Ásia e da África, tais como manga, jaca, arroz, banana, entre outros da biodiversidade na Hileia, geradores de economia em escala e commodities lucrativas do agronegócio. O que importa, nessa reciprocidade de bionegócios é identificar quem fez ou quer fazer o dever de casa e agregar inovação e valor a esses produtos. Temos um acervo infinito de opções que podem revelar-se Ovos de Colombo com investimento em inovação. É importante revisitar alguns lugares comuns da história da agro e da bioindústria para trazer à luz acertos e negligências, atitudes proativas ou condutas derrotistas. É neste contexto que se deve refletir a economia do látex e os fundamento da Bioeconomia na história do desenvolvimento da Amazônia, pela máquina de datilografia e a genialidade editorial e centenária de Sua Excelência, o Jornal do Comércio do Amazonas.


(*) Alfredo é editor-chefe do https://brasilamazoniaagora.com.br e consultor do CIEAM.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

Artigos Relacionados

Água em risco: como a poluição ameaça a vida nos rios do planeta e o que pode ser feito agora

Com a maior rede hidrográfica do planeta e uma biodiversidade aquática extraordinária, o país está no centro desse debate. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios conhecidos: saneamento insuficiente, poluição por mineração, expansão agrícola e impactos das mudanças climáticas. A Amazônia, por exemplo, já apresenta sinais de contaminação por plásticos e outros poluentes, evidenciando que nem mesmo regiões consideradas remotas estão imunes

Terras raras no Brasil entram no centro da disputa por soberania nacional

Terras raras no Brasil entram na disputa global, com Lula defendendo soberania mineral diante de pressões externas e impactos ambientais.

Mineração sustentável é possível? Transição energética expõe dilema

Mineração sustentável é possível? Avanços tecnológicos enfrentam limites ambientais, pressão sobre ecossistemas e desafios da transição energética.

O mundo mudou — e a Amazônia precisa reagir antes de ser empurrada

Entrevista | Denis Minev ao Brasil Amazônia Agora Empresário à...