Devaneios e rupturas

Paulo R. Haddad(*)
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(*) Haddad é professor emérito da UFMG, foi ministro do Planejamento e da Fazenda do governo Itamar Franco. 

“Um contexto de complacência social e de conformismo político, onde os indicadores estatísticos poderão sinalizar desastres socioeconômicos e pontos de ruptura política.”

Quando o atual período de isolamento social for encerrado, vem a pergunta: o que fazer com a economia brasileira, que desembarcará no segundo semestre com uma taxa de desemprego superior a 15 por cento, com um déficit fiscal resiliente, seis a sete vezes superior ao programado no início do ano, e uma dívida pública passando de 90 por cento do PIB? Podemos pensar em três cenários alternativos. Cenários não são projeções, mas mapas de possibilidades e de opções particularmente úteis para contextos de rápidas mudanças. Se mal concebidos, quando desconhecem novas restrições e condicionalidades, podem conduzir a sérios erros de planejamento ou até mesmo a devaneios.

Otimismo ingênuo

O primeiro cenário, que denominaremos de “cenário panglossiano”, lembra a figura do Doutor Pangloss, personagem do romance satírico Cândido, de Voltaire (1759), que professava um otimismo ingênuo e para quem “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos”. Nesse cenário, há uma tendência para considerar as turbulências sociais e econômicas durante a pandemia como uma interrupção dramática de uma caminhada “bem-sucedida do ajuste fiscal com reformas político-institucionais para a retomada do crescimento econômico”. Um desvio inesperado e exógeno na trajetória programada que exigirá um esforço de maior intensidade da sociedade “para recuperar o tempo perdido”.

A crueza da recessão

Na verdade, quando se descortinar o Mundo pós-pandemia irá transparecer uma economia global em profunda recessão, em processo de lenta recuperação e com tendência, como na crise de 1929, a aprofundar o protecionismo comercial. E um Brasil com uma economia extremamente fragilizada, com as famílias inseguras financeiramente e os níveis de pobreza e de miséria da nossa população amplamente escancarados.  Um segundo cenário, que denominaremos de “síndrome do W e do V”, no qual existe uma crença de que a perspectiva de superação da crise parece reproduzir as imagens dos ciclos econômicos do passado, sob a forma de um W ou de um V, no espaço euclidiano. Ou seja, a partir de 2014 a taxa de crescimento caiu e começou a subir mais recentemente (V). Espera-se que, depois da imensa queda durante a pandemia a taxa de crescimento volte a subir (W).

Fator imprevisibilidade

Na verdade, a experiência histórica nos mostra ad nauseam que alguns eventos futuros são altamente ou totalmente imprevisíveis e incontroláveis. Os sistemas econômicos são dinâmicos, podem flutuar de uma forma para outra e se estabilizar para tornar-se instáveis novamente, como parecem ser os fractais do novo mosaico da economia mundial. Um contexto semelhante ao de Cândido, que tomará consciência do descompasso entre a sua percepção e a dura realidade pontilhada de tragédias.

Soluções perversas

O terceiro cenário que denominaremos de “homeostase econômica”, mostra uma tendência autorreguladora do organismo econômico, que permite manter, pelo menos, um estado de equilíbrio interno de seus principais grupos de interesses, ou porque estão com sua riqueza financeira protegida e se acumulando ou porque estão conformados com as benesses distributivas das políticas sociais compensatórias. Na verdade, nesse cenário preservam-se perfidamente o baixo crescimento da economia, uma elevada taxa de desemprego e uma concentração abissal da renda e da riqueza. Um contexto de complacência social e de conformismo político, onde os indicadores estatísticos poderão sinalizar desastres socioeconômicos e pontos de ruptura política. 

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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