É indiscutível que a fome na Amazônia deva ser combatida com o que for necessário, assim como é indiscutível que é falácia que o desmatamento estruturado e criminoso seja para combater esta mesma fome. Farinha e caviar são iguarias para fomes diferentes.
O Brasil, sem definir quanto de floresta amazônica deseja e em que data, jamais poderá executar qualquer plano razoável, a deverá continuar feito barata tonta apresentando um plano por ano ou por governo. A Amazônia está neste ritmo há mais de 55 anos. Entender a Amazônia numa só existência é tarefa ainda não cumprida por ninguém.
Se o povo brasileiro desejar a Amazônia sem sangue inocente, precisa falar ao Congresso, sua ressonância natural, para que o orçamento do país corresponda à este desejo.
Se Brasília deseja levar a ZFM, precisará trazer soluções que não cabem ao Amazonas tomar sozinho, vez que ele é parte da Amazônia e a Amazônia é pauta da nação brasileira.
Também não há nenhum indicativo de que os governos federal e estadual consigam antes de 20 ou 30 anos dotar o Amazonas de condições de geração recursos para suprir o orçamento público anual de R$ 25 bilhões e manter o movimento da economia em geral em magnitude equivalente ao que a ZFM proporciona hoje. Por isso, ela é a única opção neste prazo e isto não é desapercebido por Brasília, mesmo porque não há qualquer sinalização de que o governo federal tenha um plano alternativo factível no prazo necessário.
A Amazônia já paga caro pela distância, pela dependência hidroviária e pela instabilidade histórica de investimentos estruturantes. Agora, paga também pela volatilidade climática. Ignorar essa soma é condenar a região à desvantagem permanente.
Há momentos em que um evento deixa de ser evento e vira instrumento com metodologia. A preparação do III Fórum ESG Amazônia, conduzida por CIEAM e Suframa, pode ser esse raro intervalo em que o Polo Industrial de Manaus decide fazer o que o Brasil costuma adiar: antecipar-se. E antecipar-se, agora, não é virtude abstrata. É estratégia de sobrevivência e de disputa.
O acordo União Europeia–Mercosul não inaugura apenas um novo corredor de oportunidades comerciais. Ele inaugura, sobretudo, um novo mapa de exigências — um conjunto de filtros técnicos, ambientais, reputacionais e regulatórios que passa a funcionar como “alfândega invisível” do século XXI. A Zona Franca de Manaus, que historicamente se construiu como solução nacional para um problema regional, precisa agora se preparar como solução regional para um problema global.